Que o amigo seja para vós a festa da terra

20 março 2007

Orthopolitismos

















Fénix
Katsushika Hokusai [葛飾北斎], 1847 a 1848.
Tinta sobre papel, 39,4 x 53,1 cm.
Uffizi, Florença.


Embora como um fantasma,
andarei levemente pelos campos de verão.

Katsushika Hokusai


Antes de mais quero avisar que esta posta foi já prometida no comentário posterior à posta Do bem viver que publica excertos da carta a Meneceu de Epicuro.

Porque se poderá dizer da reencarnação que é politicamente correcta? O que pode ter a reencarnação a ver com política, quando o assunto parece ser notoriamente religioso e a actualidade ocidental não acumula ambos os poderes numa só pessoa?

Não há dúvida que o assunto é religioso e não meramente parece, mas a componente política da continuação e manutenção de um bom estado das coisas parece reclamar a consciência da reencarnação. A política, como todos sabemos, trata dos assuntos da cidade, e a cidade, como tal, é o conjunto dos cidadãos socialmente contratados com direitos e deveres.

Pensando a política no momento fixo do seu acontecer, enquanto estratégia de resolução dos problemas imediatos, a reencarnação não tem qualquer lugar. Não se encontra a evidência da sua necessidade. Mas se pensarmos a política como gestora do contínuo evolutivo da cidade o caso muda de figura. Nesta mais abrangente relação temporal faz todo o sentido a implementação de credo numa consciência regressiva. E é aqui que o problema se torna de difícil classificação, pois a implementação de credos, à partida, nada tem a ver com política e sim com religião; todo o conjunto legislado de um sistema político separado da religião, advém de uma secular experiência pragmática do que está certo e errado para o bem-estar da cidade. O bem viver de todos os cidadãos, na medida possível, é o primeiro objectivo político. Isto sem falar da ilusão de não-credo de todos os actuais auto proclamados cépticos, que é assunto a desenvolver noutra ocasião.

Sendo assim, descobrindo nas regras políticas a existência verificável dos factos, não se apresenta como certa a fundação de crenças. Quer queiramos quer não, por maior ou menor romancismo, aceitar a reencarnação implica, até certo ponto que se codifica limite no ocidente, acreditar. Para uma sociedade que só reconhece a prova física num sistema de verificação experimental, será muito difícil aceitar provas de uma consciência mental remota, mesmo que igualmente verificáveis pela experiência. Sabemos que a mente existe mas não temos onde a localizar, já que esta depende da consciência e não há topos* para a última.

A confirmação de existência da reencarnação, tal como ela é feita no Budismo, não deixa de ser científica na sua verificação experimental, embora não seja possível a sua verificação física. Processa-se por métodos de sofisticação elevada no modo como se analisam as reacções mentais intuitivas do sujeito a ser analisado. E só depois de uma bateria interminável de testes se chega a verificar que uma dada criança poderá ter sido um mestre outrora falecido. Isto é, desta criança nunca se irá considerar que tem a identidade do mestre, é uma pessoa completamente única e individual que não se confunde com a outra. Simplesmente se diz que mantém algo da consciência do falecido, um seu determinado nível muito simples embora complexo: a consciência subtil. E no caso de uma pessoa que treina uma vida inteira para reconhecer em si este estado de consciência, defende a investigação filosófico-científica do Budismo para um reencarnado, torna-se possível manter algo existencial da identidade anterior. Logo, este indivíduo saberá reconhecer como seus — não são dele e sim do anterior — artefactos muito vulgares que não se distinguem de tantos outros de igual compleição entre os quais não havia maneira nenhuma de os descobrir senão por aturado conhecimento prévio. Esta pessoa reencarnada, portanto, somente é a pessoa anterior ao nível da dita consciência subtil. Sendo que esta consciência, que se alega manter depois da morte, indestrutível, em nada transporta a identidade da pessoa que faleceu para a nascida, somente perdura nela uma espécie de memória intuitiva que está tanto mais presente quanto mais se terá treinado este estado em vida. Como que uma subsunção da existência vivencial com a de uma espécie de mortificação artificial. Este estado de consciência subtil é um tal estado para nós que corresponde à nossa não existência individual física e até mental. A consciência subtil, que não deve confundir-se com a alma, é ainda anterior à mente na existência humana, e é pela presença desta durante a percepção clara e vívida daquela que, sob domínio da pessoa que tanto treinou para isso, algo da existência vivencial do indivíduo que morre pode passar para o indivíduo que nasce.
Isto faz com que a ideia que temos no ocidente de reencarnação se legitime tanto como um conto de fadas. Eu, Sara, nunca fui antes, nem seria possível remontar a minha identidade a uma existência passada. Nem princesa nem lavadeira. Contanto, algo pode manter-se, mas, segundo as investigações do Budismo Tibetano, só podemos manter alguma consciência individual que seja, enquanto consciência subtil, se tivermos experimentado a percepção dessa consciência em vida e, por muito hábito disso, retido os seus modos. Afirmar que a reencarnação, tal como a tentei descrever tão sucintamente quanto pude, não existe, é uma crença tão forte como a da afirmação da sua existência; e isto porque não temos meio de o verificar pessoalmente sem termos dedicado a vida a tal treino de morte (que se revela treino de vida). Porque se trata de um determinado treino da morte ao nível da consciência através da imaginação, assunto para o qual aconselho a leitura de Robert Thurman.
Para um suposto e auto considerado céptico, não só a nossa ideia de reencarnação surge como um disparate, como a do Budismo não se aceita provada. Os materialistas radicais, muito em voga durante o séc. XX, não aceitam qualquer prova que não seja fisicamente palpável. E como tal é para nós ocidentais incontornável, a reencarnação não vingará como realidade confirmada mas sim como um credo que podemos ou não votar.

No entanto, o facto de ser necessária a constituição de um credo, já que a reencarnação não seria aceite como realista pelo mundo político ocidental sem prova física dada pela nossa ciência, materialista radical, não implica que a reencarnação não seja o que de mais politicamente correcto há no ponto de vista da preservação do nosso bem viver. Estamos na ordem das técnicas de manutenção de conquista. O problema fundamental da política recente já não é tanto o da segurança mas sim o da economia, e mais recentemente ainda juntou-se à economia a ecologia. Tanto uma como a outra tratam da oikos**, que é a nossa casa comum. E numa época globalizada como a nossa, em que tantas culturas se fundiram em muito poucas, esta oikos** é o nosso abrangente ecossistema. Está no bom cuidado da nossa casa (eco) que se mantém ou proporciona o bem viver. E é aqui que faz todo o sentido falar em reencarnação.

Podíamos alegar que a preservação da nossa casa deve depender da boa vontade e boa fé de todos os cidadãos do mundo, que é por aí que se resolve o problema, mas esta alegação é tão ilusória como imaginar que a ciência materialista radical vai aceitar a reencarnação como um dado de facto. A verdade é que países como os Estados Unidos da América, que têm um grande peso mundial, não estão a tomar medidas políticas que apostem na preservação ecológica. A nossa casa continua e continuará a ser poluída e o aquecimento global não para de aumentar. Mas porquê isto? Porque se tomam medidas prejudiciais para a Terra quando é o único lugar no universo que nos é dado possível viver? Já nem falo da tremenda falta de ética que subsiste nesta acção despudorada. Em prol de uma economia crescente, só para alguns, claro, prejudica-se uma ecologia de todos que está já tão perigada. Não vou defender que a economia deve ser posta de lado para se tratar da ecologia, de ambas depende o ecosistema, mas se não se tomam urgentes medidas em defesa da ecologia em pouco tempo não haverá mais economia a fazer.

Não será por puro egoísmo que se tomam as medidas que se têm tomado a favor da poluição? Não será porque quem toma estas medidas está com a ideia de que as consequências que delas advêm não cairão sobre si? O aquecimento global começa a dar sinais da sua reclamação, mas isto, pensam os políticos egoístas e irresponsáveis, não será nem para os seus netos. Porque deverão eles estar a preocupar-se com uma coisa que é nada para eles? Cada um trata de si safando-se como melhor pode, por isso, se a solução de hoje é continuar a queimar petróleo e lançar tantos outros lixos para a ecoesfera é isso que tem de ser feito. E os outros que aí vêm para depois quando vier a consequência? Não importa. Não é por se preocuparem com mais que si próprios que estes políticos vão tomar decisões para o futuro.

Eis que começa a fazer sentido a implementação de um novo paradigma de entendimento para estas tão irresponsáveis e imediatistas medidas económicas. Se todos os cidadãos tivessem a reencarnação como um dado adquirido, e por aí soubessem que haveria sempre a possibilidade de um determinado regresso, mesmo que noutra identidade, teriam mais cuidado com a provável retaliação da natureza.

Mas, como fazer isto? Voltamos à dificuldade inicial. Como se institui politicamente a ideia do regresso sem recorrer à crença religiosa quando a nossa ciência aposta radicalmente na superficialidade da matéria?

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