Que o amigo seja para vós a festa da terra
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05 julho 2010

A primeira natureza da luz


































Quando pensamos na antiguidade, nos episódios históricos que já foram, não imaginamos que seja possível retomá-los, como se pudessemos reviver o simpósio de Platão, e ouvir em primeira mão o discurso de Aristófanes. Mas, de certa forma, é isso que a ESA está a tentar fazer com o nosso céu. A "máquina fotográfica" do Planck dá-nos de volta uma resonância da primeira luz da nossa existência universal. É tão incrível quanto isso! Uma fotografia da primeira luz de todas as luzes de sempre. Não será a primeira fotografia mas é a primeira fotografia da primeira luz deste universo.
























Um mapa completo do nosso céu, que por ter sido feito nas nossas imediações, apresenta o ângulo fotográfico subjectivo da Terra, captando os gases e o pó celestial de onde se formaram todas as estrelas à cerca de 14 mil milhões de anos. Para isto ser possível os sensores do satélite tiveram de ser arrefecidos até muito próximo do zero absoluto, de modo a captarem-se variações de temperatura que são cerca de um milhão de vezes menores que um grau. Se o zero absoluto, medido em graus Kelvin é zero, 0ºK, em graus Celcius são -273,15ºC, e os sensores do aparelho trabalham a -273,05ºC. A viagem no tempo para a primeira luz faz-se praticamente no zero absoluto. E a imagem que vemos abaixo inclui relíquias de radiação da luz do Big Bang, a tal primeira luz, a pontilhado amarelo, inclui o pó celestial da nossa galáxia a azul, e a vermelho temos gases de temperaturas altas. Na imagem de cima a Via Láctea é desenhada por uma risca horizontal quase branca, de onde se vêm partir, para cima e para baixo, correntes de pó celestial frio que se estendem por milhares de anos luz.




























Este telescópio faz uma fotografia panorâmica da anisotropia esférica de todo o universo em torno de si mesmo, captando as já muito arrefecidas micro ondas da radiação cósmica de fundo do nosso universo, que, segundo a astrofísica, é o resultado actual da primeira emisão de luz do universo, o primeiro nascimento, a primeira natureza da luz, o Big Bang. É isto que espanta sem fim... uma fotografia do Big Bang de dentro para fora.


















O Planck faz um varrimento do céu por aneis que têm, cada um, cerca de 15º em largura, demorando mais ou menos seis meses a completar a imagem do céu inteiro. O tempo operacional do Planck foi calculado em 15 meses, pelo que serão feitos dois varimentos completos do céu.



E é assim que recuando no tempo enquanto se olha para a frente, pudemos retomar o primeiro de todos os discursos, e perceber como viemos aqui parar a este lugar no cosmos. Será que o Big Bang é mesmo o início de tudo? Será que tem vindo a expandir-se e assim continuará, até à escuridão, como é dito na mitologia contemporânea? Será que podemos continuar a dividir o conhecimento entre crentes, ateus e agnósticos?

26 abril 2010

The dark side of chocolate



Miki Mistrati e U. Roberto Romano, The Dark Side of Chocolate, 2010.


The Dark Side of Chocolate é um documentário sobre alegações feitas acerca do tráfico de crianças e trabalho infantil, pela indústria internacional do chocolate.

«Enquanto apreciamos o doce sabor do chocolate, a realidade é completamente diferente para as crianças africanas.»

Consumidores de chocolate por todo o mundo ficaram escandalizados em 2001, ao descobrir que a escravatura, o trabalho infantil e outros abusos, estavam em uso nas roças de cacau da Costa do Marfim, país onde se produz quase metade do cacau para todo o mundo. Cedo se seguiu uma avalanche de publicidade negativa e consumidores à procura de respostas.

Dois membros do Congresso dos Estados Unidos, o Senador Tom Harkin do Iowa e o Legislador Eliot Engel de Nova York, adereçaram a questão propondo uma lei ao Sistema Federal para certificar e etiquetar produtos de chocolate como "slave free" (sem escravatura). A medida passou à Casa dos Representantes e criou um potencial desastre económico para a Cargill, Archer Daniels Midland Mars, Hershey’s, Nestle, Barry Callebaut, Saf-Cacao e outros produtores de chocolate. Para evitar uma legislação que iria obrigar as companhias do chocolate a marcar os seus produtos com etiquetas "no child labor" (sem trabalho infantil) (para a qual muitos produtores não chegariam a poder certificar-se), a indústria defendeu-se e acabou por ter de aceitar um protocolo voluntário, a implementar até 2005, para terminar com o abuso e o trabalho infantil forçado nas roças do cacau.

Em 2005 a indústria do cacau não foi capaz de cumprir com o protocolo e estabeleceu-se uma nova data para 2008. Em 2008 os princípios do protocolo continuavam sem resposta e levantou-se ainda uma outra data limite para 2010.

E em 2010?

Quase uma década depois e milhões de dólares gastos na tentativa para erradicar o tráfico de crianças e o trabalho infantil do negócio do cacau, será que alguma coisa mudou?

Miki Mistrati e U. Roberto Romano iniciaram uma investigação discreta, para averiguar se estas alegações de trabalho infantil na indústria do cacau ainda eram pertinentes na actualidade.


Março, 2010
Miki Mistrati & U. Roberto Romano



A exibir brevemente na SIC


Tradução do Skapsis

02 fevereiro 2010

Caríssimos junkies, a globalização tem os dias contados

Ontem no Público online:


Estudo da Universidade do Minho

Silva Pereira reafirma linha do TGV para Porto e Vigo apesar da falta de retorno

01.02.2010 - 14:15 Por Maria Lopes
O ministro da Presidência reafirmou hoje a intenção do Governo em construir as linhas de alta velocidade Lisboa-Porto e Porto-Vigo, apesar de um estudo encomendado pelo ministério das Finanças concluir que estas terão pouco retorno ou até mesmo prejuízo.
 
Daniel Rocha

O estudo encomendado pelo ministério de Teixeira dos Santos a um professor da Universidade do Minho debruça-se sobre o pacote de grandes obras públicas projectadas pelo Governo. E conclui que os investimentos necessários para as duas linhas de TGV para Norte só a longo prazo poderão ter algum retorno no caso do troço Lisboa-Porto e que o as contas do lanço Porto-Vigo deverão mesmo ser sempre negativas. A excepção a este cenário cinzento é a linha Lisboa-Madrid.

Questionado pelos jornalistas na conferência de imprensa sobre a reunião extraordinária do Conselho de Ministros, Pedro Silva Pereira desvalorizou as conclusões do estudo e lembrou que “todos os investimentos implicam, numa primeira fase, um endividamento”. No caso do TGV, vincou, “são investimentos que promovem, a prazo, o retorno para a economia”, e “as análises de custo-benefício são favoráveis a esses investimentos”.

“Não podemos confundir as lógicas de curto prazo com as lógicas estruturais. E o país está numa fase em que precisa de fazer escolhas estruturais”, afirmou. E avisou que Portugal “não pode demorar décadas a discutir os investimentos”, como “os 50 anos para discutir o Alqueva, 40 para o novo aeroporto, e 20 para a alta velocidade”.

“O estudo confirma que estes investimentos são úteis e modernizadores da economia portuguesa”, reiterou o ministro.

um comentário interessante:

Necessidade do TGV

Já alguém pensou como vamos transportar mercadorias de/para a Europa quando já não houver petróleo, ou quando este estiver demasiado caro para ser rentável? Certamente não será com nenhum meio de transporte que consuma um derivado do combustível fóssil. Pois bem, é preciso criar linhas de comboio novas para transportar as pessoas, uma vez que as actuais farão falta para o transporte das mercadorias. (Sim, eu sei que as auto-motoras trabalham a gasóleo. Será preciso fazer também alguma coisa acerca disto) Espero que vejam as pessoas tenham a capacidade de ver as necessidades do País a longo prazo. É que para construir infra-estruturas, a nossa indsútria também se alimenta de petróleo. E se este líquido precioso não existir, a construção de uma linha férrea será muito mais cara. Nessa altura Portugal ficará definitivamente isolado da Europa e do Mundo à espera de uma alternativa energética. A propósito, Portugal não tem necessariamente que comprar comboios. Desde que hava linhas de TGV, os espanhóis e os franceses podem explorá-las. Alguém que me corriga se eu estiver errado no que disse.

 Pois é, já nos pusemos a pensar sobre um futuro relativamente próximo sem petróleo? Sem aviões, sem carros, sem máquinas agrícolas, sem transportes baratos ou rápidos, com uma redução esmagadora na produção de todo o sector industrial do mundo... uma lista infindável de itens que actualmente temos como de absoluta necessidade. Estamos de tal modo viciados numa economia de consumo dos combustíveis fosseis (para não falar dos outros consumos que nos tornaram autênticos junkies) que já não somos capazes de ver o buraco em que nos metemos.

Concordamos com a construção do TGV? Hummm. A resposta imediata é não... claro! Caríssimo, pouco rentável, para minorias, etc, etc, etc. Mas se nos pusermos a pensar nas implicações de um futuro próximo sem petróleo ou energia alternativa que o substitua, a reposta já não pode ser tão leve ou superficial.

Um mundo sem petróleo... ora aí está uma matéria interessante a dar muito que pensar.

06 outubro 2009

La liberté?



















La liberté guidant le peuple
Eugène Delacroix, 1830.
Óleo sobre tela, 260 x 325 cm.
Musée du Louvre, Paris.



Ou será antes o caso duma liberdade de extensão do USA PATRIOT Act (Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism Act) sob a forma de UE FP7 INDECT Project (Intelligent information system supporting observation, searching and detection for security of citizens in urban environment)? Será que a tendência chegou mesmo à Europa, de vez e para ficar? Será que o nosso 'antigo regime' se renova, agora, por todo o mundo europeu, com a desculpa esfarrapada do terrorismo ou prevenção de conflito (Minority Report)? Acabaram-se de vez as nossas liberdades individuais e já não temos direito à privacidade? Alguma vez tivemos...? Mas agora parece que não temos mesmo...

Fala-se de comportamentos anormais e nós perguntamos... o que é um comportamento anormal?

Esta posta não traz nada de novo pois o assunto está apresentado numa notícia do Público de hoje e a sua polémica foi devidamente notada. Mas, como o texto vai ser arquivado e deixará de estar disponível, o Skápsis resolveu fixar o assunto.



Críticos dizem tratar-se de uma medida "orwelliana"
Internet: projecto europeu vai tentar detectar condutas "anormais"

Um programa de cinco anos financiado pela União Europeia chamado Projecto Indect tem como objectivo desenvolver programas de computador que actuem como agentes de polícia, monitorizando e processando informações de sites, fóruns de discussão, servidores, redes sociais e mesmo computadores individuais. O objectivo é detectar condutas “anormais” ou indícios de violência. Os detractores do projecto já vieram dizer que se trata de uma medida “orwelliana” e um “passo sinistro”.

Foram atribuídos ao projecto 10 milhões de libras (10,9 milhões de euros) e a sua coordenação está a cargo da Universidade AGH de Ciência e Tecnologia, na Polónia. A par com este país, estão igualmente envolvidos a Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Bulgária, República Checa, Eslováquia e Áustria, bem como o serviço policial da Irlanda do Norte, de acordo com o “Telegraph”.

Segundo a página oficial do Projecto Indect, que começou este ano, os grandes objectivos desta acção incluem “o desenvolvimento de uma plataforma de registo e troca de dados operacionais, a aquisição de conteúdo multimédia, o processamento inteligente de todas as informações, a detecção automática de ameaças e o reconhecimento de comportamentos anormais ou violência”.

A página fala ainda da criação de “agentes com a missão de monitorizar continuadamente e automaticamente recursos públicos como sites de Internet, fóruns de discussão, redes sociais, servidores, redes P2P (peer-to-peer), bem como sistemas informáticos individuais, construindo um sistema inteligente, simultaneamente activo e passivo, de recolha de dados com base na Internet”.

Este projecto Indect acontece numa altura em que a União Europeia está a expandir o seu papel de combate ao crime e ao terrorismo, controlando apertadamente os fluxos de migração para dentro das fronteiras europeias. Nos últimos tempos, o orçamento europeu destinado a estas áreas cresceu 13,5 por cento, fixando-se actualmente nos 900 milhões de libras (981 milhões de euros), indica o “Telegraph”.

A Comissão Europeia tem vindo a pedir uma “cultura comum” de reforço das leis de segurança em toda a União Europeia, querendo que cerca de um terço das suas forças policiais recebam formação em assuntos europeus durante os próximos cinco anos.


Medida “arrepiante”

Shami Chakrabarti, director do grupo Liberty de protecção dos direitos humanos, declarou ao “Telegraph” que a introdução de técnicas de vigilância com este alcance é um “passo sinistro” para qualquer país, sendo ainda mais “arrepiante”, se pensarmos que ele tem uma dimensão europeia.

“Analisar populações inteiras em vez de monitorizar suspeitos individuais é um passo sinistro em qualquer sociedade. Se já é suficientemente perigoso a um nível nacional, à escala europeia torna-se verdadeiramente arrepiante”, indicou Chakrabarti.

Por seu lado, Stephen Booth, analista da organização Open Europe (um think-tank com base em Londres e assumidamente eurocéptico), indicou igualmente ao “Telegraph” que a introdução na agenda europeia deste projecto tem ressonâncias “orwellianas” e coloca sérias questões sobre as liberdades individuais, lamentando que os impostos dos cidadãos europeus tenham como destino missões deste tipo.

“Isto é assustador. Estes projectos significam uma enorme invasão de privacidade e os cidadãos precisam de se perguntar se a UE deveria gastar os seus impostos neste tipo de coisas”, disse. “Já alguém se questionou se isto serve mesmo os interesses dos cidadãos?”, acrescentou.

Citado pelo “El País”, David Larrabeiti López - da Universidade madrilena Carlos III, que também participa neste projecto europeu - rejeita qualquer interpretação “orwelliana” desta iniciativa. De acordo com as suas explicações ao diário espanhol, o Indect reúne um conjunto de “ferramentas de interesse em termos de segurança dos cidadãos”, que incluem, entre outras coisas, a análise automática de imagens de vídeo e o rastreio de dados públicos disponíveis na Internet para o seu respectivo reconhecimento com “técnicas de interpretação de linguagem natural”, escreve o “El País”.

David Larrabeiti López opina ainda que as próprias polícias nacionais e os serviços secretos já dispõem de instrumentos de vigilância muito mais potentes e agressivos quando querem localizar suspeitos concretos. “O projecto não pode aceder, por exemplo, a bases de dados policiais nem cruzar endereços de IP com utilizadores”, esclareceu o mesmo responsável. “O uso de dados pessoais está expressamente excluído do projecto e não há nenhuma intromissão na privacidade”, concluiu.

Detectar e imobilizar uma agulha no palheiro

Este Projecto Indect parece aproximar-se de um outro, da própria União Europeia, chamado Projecto Adabts (Automatic Detection of Abnormal Behaviour and Threats in crowded Spaces), coordenado a partir da Suécia e que também procura detectar comportamentos “anormais” em espaços onde se agrupem multidões e que recebeu cerca de três milhões de libras (3,2 milhões de euros) de financiamento.

O coordenador do projecto, Jorgen Ahlberg, da agência sueca de pesquisa defensiva, explicou que este sistema irá analisar uma série de características individuais (incluindo o tom de voz e a linguagem corporal) de determinadas pessoas numa multidão. “Normalmente as pessoas não começam uma luta de um momento para o outro. Começam por gritar umas com as outras, por darem empurrões... Este sistema não vai servir para que as pessoas sejam detidas imediatamente, vai apenas servir para alertar um operador que alguma coisa está a acontecer. Por exemplo, num centro comercial, se for enviado um segurança atempadamente, pode nem sequer chegar a haver desacatos”, explicou Ahlberg, citado pelo Telegraph.

De acordo com o think-tank Open Source, os dados recolhidos pelo Projecto Indect e por sistemas semelhantes poderão ser usados por um organismo europeu pouco conhecido, o SitCen (Joint Situation Centre), que poderá ser o embrião dos serviços secretos europeus. Alguns críticos comentam inclusivamente que se poderá tornar na CIA europeia. Desde 2005 que o SitCen tem servido para recolher e partilhar informação de contra-terrorismo.


Comentários

Comentário 06.10.2009 - 19h59 - Anónimo, mundo
1984... melhor que tentar explicar em 5 linhas o porque de desprezar estas medidas, é deixar os links para dois videos MUITO explicativos dos porques de estas medidas serem orwellianas e absolutistas: fuzilah . posterous . com/open-your-eyes . fuzilah . posterous . com/ask-questions

Comentário 06.10.2009 - 16h14 - Zé Pagode, Lisboa
Cara Amélia, considero então que acha aceitável que sejamos todos vigiados e espiolhados porque aqueles que só têm comportamentos aceitáveis não têm nada a temer. E que comportamentos é que são "aceitáveis"? E se o Big Brother decidir que o partido da Amélia não é "aceitável"? E se usar informação privada sua para lhe vedar acesso a um emprego, porque a Amélia disse mal não sei de quem num email para uma amiga? Pois é, numa sociedade da vigilância ninguém está seguro, ninguém é livre. Comparar isso com um carro-patrulha na estrada é de uma parvoíce imensa.

Comentário 06.10.2009 - 15h09 - Anónimo, lisboa
Pois é... A internet (o Zion dos tempos modernos) o ultimo bastião da liberdade e de troca de informação está sobre grande ataque, e aqueles que se dizem "justos", "correctos" ou que "não fazem nada de censurável" só são assim porque ainda não ilegalizaram nada que façam e que acham normal. Agora quando acabarem com a internet em prol dos grandes interesses financeiros, veremos que o cidadão, os artistas e a própria evolução tecnológica é que serão os mais perderão. Já muitos avisam, mas há sempre as ovelhas que seguem a autoridade sem porem em causa a legitimidade das próprias regras.

Comentário 06.10.2009 - 14h26 - Amélia Costa, Lisboa
Pois eu acho muito bem...não tenho medo destas acções de segurança, do mesmo modo que não travo quando vejo um carro da polícia. Porquê? Porque cumpro os limites de velocidade e porque utilizo a net para actividades que nada têm de censurável...

Comentário 06.10.2009 - 13h53 - Anónimo, Lisboa
quando irão estes burocratas perceber que não há comportamento "normal" humano? a estupidez hoje em dia é viral como a gripe.

Comentário 06.10.2009 - 13h49 - Templário, Eurábia
Pelo menos, ainda bem que avisam. A medida, expressa nestes termos, sempre é dissuasora. Agora não me acredito que esta informação seja destinada à mão de santinhos. Quem puser a mão nesta informação vai dar-lhe todas as utilizações possíveis que o dinheiro permitir. Tudo tem um preço, tudo se compra. E no que toca à política, instituições de poder e grandes empresas... mais não digo. Acredito nos hackers, os quais encarregar-se-ao de tratar da saúde a estes meninos Orwellianos.

Comentário 06.10.2009 - 13h48 - Anónimo, Lisboa
um absurdo ... para legitimizar estas e outras medidas absolutistas é que o tratado de lisboa foi forçado ...

Comentário 06.10.2009 - 13h30 - Filipe, Lisboa
Acho inacreditável que com tanta obra literária ou cinematográfica à volta deste tema, ainda haja alguém com estas ideias de controlar e que pense que isto não é nada invasivo. Então se não é invasivo porque é que o querem fazer? Metam-se na vossa vida e preocupem-se convosco. É por este motivo que os estudantes universitários têm mesmo de poder enfrascar-se à vontade, senão ficam como estes totós, que querem viver a vida dos outros, porque não têm vida própria. Cerveja e Liberdade!

13 maio 2009

Diz lá o que te consome...

Alguém pode esquecer o que é apaixonar-se?

Por um lado não, não é possível, todos sabemos o que é apaixonar-se, mas, por outro lado, será que sabemos mesmo o que isso significa?

A paixão é uma patologia, que neste caso está associada ao amor, e este por si mesmo pode considerar-se uma mania, como dizia o das costas largas. O amor é uma forma da loucura, da irracionalidade, já que supera todas as barreiras do pensamento racional e nos leva a defender ideias por si mesmas indefensáveis. O amor, digamos, é uma força de união do que não tem união possível e acaba com os dualismos pela existência deles mesmos. A paixão, por sua vez, embora associada ao amor, está muito distante dele, é uma patologia, um pathos, algo de que se padece, mas não é uma mania como se identifica o amor no antigo. Na paixão há uma submersão enquanto que no amor está presente uma união, ou supressão das partes. No pathos depende-se da outra parte e na mania não se distinguem partes. Mas isto, seja numa ou noutra destas duas formas da afecção atraente, não é algo que nos esteja acessível por uma descrição narrativa ou formulação racional. Só temos acesso a elas pela experiência cognoscível do momento vivido.

Apaixonar-se é algo que não está numa nem noutra, embora a palavra indique entrada na primeira, é de facto um início para estas duas afecções. Na paixão, ainda enquanto apaixonar-se, o amor está presente em potência, é uma possibilidade, mas o amor pode surgir sem qualquer explicação ou apaixonar-se. Por isto, é possível concluir que o apaixonar-se é uma forma de acesso ao amor que tende a levar para a paixão. Na paixão somos tomados pelo outro lado e as barreiras da linguagem são ultrapassadas sem serem sequer identificadas, isto é, agimos como se não houvessem barreiras. Mas, com cuidado e muita atenção, predisposição afectiva e disponibilidade emocional, é possível identificar essas barreiras e diluí-las o suficiente para não ter de ignorá-las. O amor é consciente destas barreiras e o apaixonar-se pode evoluir sem chegar a compadecer-se no prendimento à patologia do afecto pelo outro.

Sendo assim, podemos distinguir um apaixonar-se saudável e outro doente. Um deles, felizmente o primeiro, nunca é esquecido, não pode ser esquecido, mas pode ser arrumado e dispensado como que impossível por quem tenha sofrido tanto que não acredite mais nele, ou tenha medo de acreditar. Aí só resta trabalhar no sentido da renovação da crença no amor de forma completa e abrangente. Tarefa muito difícil para alguns mais sofridos. O outro, o apaixonar-se doente, para quem tenha tido a sorte de não sofrer tanto ou ter sido capaz do tal amor completo e abrangente, acaba por esfumar-se no esquecimento e passa a não ser mais que uma narrativa do passado. Isto tendo em conta que todos passam pelo menos uma vez na vida pela paixão sem conseguir fazer-se evoluir para o amor. É próprio da adolescência e faz parte dos processos que levam a desvelar o apaixonar-se saudável. Será escusado dizer em mais que uma linha como o sim precisa do não para existir.

Agora simplificando: não, ninguém se esquece do que é apaixonar-se, mas muitos optam por agir como se tivessem esquecido para evitar o sofrimento. Contudo, esses que fogem assim, no fundo, são os que fogem da vida, e acabam por não servir de exemplo.

Visto isto de outro ângulo, para todos, o apaixonar-se, seja ele qual for, é sempre outro e renovado a cada momento que passa. Por isso, lembrado ou esquecido, nunca deixa de ser, e se tiver sido esquecido é lembrado noutros termos, se tiver sido lembrado é novamente assimilado para fazer evoluir a sua concepção. Depois, resta juntar a subjectividade de cada um para complicar tanto o problema que não há mais resposta possível.

Mas, diz lá o que te consome...

07 setembro 2008

SD spintadesign




















Aos fieis leitores deste blogue agradecemos a continuada atenção às postas que se têm tornado cada vez mais escassas. Neste momento o Skapsis está a publicar uma vez por mês, tal como passou a fazer no ano corrente, e assim nos parece que continuará salvo raras excepções.

Desta vez é tempo de vir anunciar o atelier de design que esteve, desde o início em silêncio, por detrás das opções estilísticas deste layout. Pelo que agradecemos à SD spintadesign o apoio que nos tem dado. Obrigada pela vossa atençã0 e até à próxima posta.

22 julho 2008

Outras postas

Em resposta a esta posta o Skapsis comentou assim:

A tentativa de se estabelecer uma definição do que é a arte, não é tarefa impossível, mas, sem querer parecer demasiado derrotista ou negativa, só posso considerá-la fútil. E, para quem pretende seguir com esse empreendimento (sem diminuir o valor dos tantos trabalhos já publicados) será necessário, antes de mais, perceber qual é o grupo sociocultural, assim como político e profissional, de quem frui. Quem analisa e qual é o objectivo de quem se lança para esta tarefa eventualmente interminável?

Mas o perfil de quem aprecia um objecto declarado arte e o objectivo de quem o declara, ou analisa a validade dessa declaração (muitas vezes a mesma pessoa, e o que a produz acaba por não ter voto real na matéria), não é o que de todo em todo revela fútil a tentativa desta definição. Para além do fruidor como elemento fundamental, de modo a que se perceba a efectividade de uma definição do que é arte, será também fundamental desvelar o paradigma que está por detrás, ou na base, do conhecimento — seja ele estésico, mnémico, empírico ou técnico, como poderia dizer Aristóteles na sua pirâmide invertida — daquilo que se pode considerar um objecto de arte e a sua compreensão enquanto tal. De que época se trata e qual é a mentalidade civilizacional que está a tratar?

Depois de saber quem e porque o faz, quando e a que referências recorre para compreender quais referências. Só podemos chegar à inevitável conclusão de que esta tarefa, que é muito válida enquanto tentativa, se mostra fútil pelo que tem de relativa, sem chegar de facto a algum predicado definitório. Isto poderia dizer-se de qualquer definição cujos elementos que mostro no início deste parágrafo não estejam suficientemente estabelecidos.

Com isto quero dizer que tanto a definição mimética, como a formalista, a expressionista ou a de indefinível, seja ela qual for, estão todas certíssimas, pelo simples facto de que cumprem o objectivo compreensivo a que se propõem em cada uma das épocas em que surgiram. Digo mais, todas essas definições, tomando o ponto de vista certo, estão ainda hoje válidas, e, de forma geral, se é que se arrogam a uma definição geral, estão e estarão sempre erradas. Como diz o próprio título da posta, não sei se com todo o propósito, trata-se de “O enigma da arte”. Sendo este enigma um dos mistérios — senão aquele mesmo — que mais se deve preservar. E como qualquer outro mistério, não é para ser conhecido se não se quer que perca a sua validade enquanto tal. O enigma está posto para se abrir, mas o mistério age como a sua forma última, o aporético. O enigma da arte é, em última circunstância, aporético. Não passa. Não que não se possa definir mas a sua abertura não se dá, ou vai-se dando, bolsa a bolsa, círculo a círculo, como o tempo numa comédia interminável.

E dizer o que é a arte hoje, ainda se torna mais ridículo, pois dizendo o que ela é hoje, está a falar-se do que ela já não é. Escusa-se uma tentativa de análise lógica por reductio ad absurdum. E aqui não posso concordar mais com o autor desta posta, quando diz que “Todos parecemos saber perfeitamente bem o que é a arte, mas mal tentamos explicar o que ela realmente é, enredamo-nos em contradições e implausibilidades.”. Está visivelmente recordado do que disse Santo Agostinho acerca do tempo. Pois, não é de todo errado comparar a compreensão que se tem do tempo com a que se tem da arte. Compreensão que evolui à medida que mais fundo nela se pensa, e se vão descobrindo os meandros das nossas possibilidades compreensivas.

Sendo assim, qualquer obra que se proponha dar uma definição de arte, embora possa ter imenso interesse e forneça riquíssima cultura geral, não cumpre outro objectivo que não o de um exercício de estilo numa análise tópica, ou mesmo epidérmica, tal como esta crítica que acaba de ser escrita.

09 janeiro 2008

Resolução

É com pouco ânimo que o Skapsis vem partilhar com os seus leitores, a consciência do problema que surgiu nas postas anteriores à do desejo de Boas Festas. Todas as imagens, gráficos ou fotografias, que foram publicadas desde 8 de Fevereiro até 9 de Dezembro de 2007, estão desaparecidas. Algumas ficaram simplesmente invisíveis e outras estão como se nunca estivessem estado.

Assim que o problema se tornou visível, foi feito um pedido de esclarecimento ao apoio técnico do Blogger. A invisibilidade e desaparecimento de todas estas imagens não é problema que possa ser resolvido facilmente dentro da gestão deste blogue, o que implicaria carregar, uma por uma, todas as imagens desaparecidas. Sendo assim, o Skapsis aguarda pela intervenção da equipa técnica do Blogger, de modo a que o problema seja resolvido.

06 janeiro 2008

Karité














Vitellaria Paradoxa no Mali
© CossalterCirad















Sementes deVitellaria Paradoxa
Wikipedia


Corpore sano in mens sana.

"Mens sana in corpore sano."
Juvenal, Satire X.

01 janeiro 2008

Bom Ano de 2008!!!

21 dezembro 2007

Boas Festas

09 novembro 2007

Inesperado desempenho










Os leitores que se tornaram assíduos do Skapsis sabem que aqui não é comum anunciar espectáculos por vir ou em cena, mas desta vez teve de abrir-se uma excepção. Ontem tive a oportunidade de assistir ao inesperado desempenho de um excelente artista Japonês, integrado no festival Temps d'Images. Hiroaki Umeda volta ao palco hoje pelas 21h30 na Culturgest.

Este coreógrafo começou por estudar fotografia para depois se voltar para a dança. «A dança é a tempo real.» Disse ontem aos espectadores que o foram ouvir depois, como justificação para esta mudança de disciplinas. Contudo, não ouve propriamente uma mudança de disciplinas mas uma modificação na abrangência das disciplinas. Hiroaki estudou fotografia (desenho da luz) e dança (desenho do corpo) por pouco tempo, e cedo se tornou autodidata — também nos confidenciou. Mas nestas duas peças em exibição, While Going to a Condition e Finore, o artista também concebeu a banda sonora. O resultado é de uma impressionante fluidez com altíssima qualidade. Disse-nos ainda que o desenho da luz e do som
(hipnótico e industrial) não é menos importante que o do seu corpo, um objecto em movimento, insignificante como qualquer movimento, completamente integrado no conjunto.

Corpo, luz e som, numa coreografia de sincronias rítmicas complexas que dificilmente podem ser descritas sem cair nos tecnicismos de uma linguagem incompreensível. Embora se possa fazer alguma descrição da luz e do som, a coreografia corporal que Hiroaki dança tem de ser experimentada ao vivo, razão pela qual não se apresenta aqui mais que uma imagem da primeira peça.

A não perder!


Fotografia de F.Villemin

28 agosto 2007

Free Hugs


Canpanha Free Hugs de Juan Mann. Abraços grátis.


O Skapsis subscreve esta campanha!

25 julho 2007

§




















Em Fevereiro, quando nasceu o Skapsis, publiquei uma pequena introdução ao blog e a mim como blogger, que dava algumas pistas para o significado do título. Agora, por respeito aos leitores que entretanto aderiram ao Skapsis, impõe-se uma nova nota de explicação, mas não em relação ao blog.

Depois de cinco meses já não sou tão nova nisto quanto era, e à medida que fui explorando este universo o Skapsis cresceu. Entre as várias evoluções e acrescentos, juntei uma lista viva de categorias. Lista que, em geral, não precisa de introducção, mas há duas categorias que podem implicar esclarecimento: skapsis e §.

Sob a categoria skapsis publico os textos que, como este, dizem respeito à escrita no blog e não fariam sentido fora dele. Sob a categoria § publico imagens e, ou, textos, que fiz ou escrevi. Como vocês, meus prezados leitores, terão percebido, as obras do mundo que aqui se publicam estão identificadas tanto quanto me é possível identificar, e nestas incluo aquelas que do meu fazer já não me pertencem: como é o caso dum desenho, devidamente identificado como todas as outras. No entanto, as feitas por mim e que ainda me pertencem não têm mais identificação que a data, e o lugar no caso das fotografias ou desenhos.

Dá-se o caso excepcional de uma posta que recebeu ambas as categorias; por um lado foi escrita de propósito para o blog e, por outro, é suficientemente universal e objectiva para valer fora dele.

Aproveito para vos agradecer a todos, leitores e comentadores, pela vossa rica presença no Skapsis e desejo-vos boas estadias, na esperança de que este blog continue a ser do vosso agrado.

Beijinhos a todos.

12 julho 2007

Estar a caminho












Sintra 2006


E seja o que for, que ainda me espere como destino e experiência, há-de incluir alguma caminhada e alguma subida de montanhas: na sua vivência, afinal, uma pessoa apenas se repete a si própria.

Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Lisboa, Relógio D’Água, 1998.

«Vais conseguir!»

11 junho 2007

O sentido



















Qual é o sentido da vida?

07 maio 2007

Quem percebe d'arte?


Partita nº2 em Ré menor de Bach por Joshua Bell
Excerto da Chaconne
BWV 1005


A razão de toda esta indiferença está nos críticos, não que a culpa seja deles mas da sua própria existência. Se não os houvesse não seria necessária a contextualização da arte, ninguém se teria habituado a saber que não sabe e a precisar do seu concelho para se dedicar a saber. De facto, as pessoas afastaram-se tão radicalmente do que sabem que se torna necessário um pódio para que se consagrem ao saber de si próprias.

05 abril 2007

Shoah

Demoníaco


É bem conhecida a obstinação com que uma recorrente tendência herética defende a exigência da salvação final de Satanás. O plano abre-se sobre o mundo de Walser quando até o último demónio do Gehinnom foi levado para o céu, quando o processo da história da salvação se concluiu sem resíduos.
É espantoso que os dois escritores que, no nosso século, observaram com mais lucidez o horror incomparável que os circundava — Kafka e Walser — nos apresentem um mundo onde o mal na sua suprema manifestação tradicional — o demoníaco — desapareceu. Nem Klamm, nem o Conde, nem os escrivães ou os juízes kafkianos, e ainda menos as criaturas de Walser, poderiam jamais figurar num catálogo demonológico. Se algo semelhante a um elemento demoníaco sobrevive no mundo destes dois autores, é mais sob a forma que Espinosa tinha talvez em mente, quando escrevia que o demónio é apenas a criatura mais frágil e mais afastada de Deus, e, como tal — isto é, na medida em que é essencialmente potência —, não apenas não pode fazer nenhum mal, como, pelo contrário, é aquela que tem mais necessidade da nossa ajuda e das nossas orações. O demónio é, em cada ser, a possibilidade de não ser que, silenciosamente, implora o nosso socorro (ou, se quisermos, o demónio não é mais do que a impotência divina ou a potência de não ser em Deus). O mal é apenas a nossa inadequada reacção face a este elemento demoníaco, o medo com que recuamos perante ele para exercer — fundando-nos nesta fuga — um qualquer poder de ser. Só neste sentido secundário a impotência ou a potência de não ser é a raiz do mal. Fugindo perante a nossa própria impotência, ou procurando servirmo-nos dela como de uma arma, construímos o maligno poder com o qual oprimimos aqueles que nos mostram a sua fragilidade; e faltando à nossa íntima possibilidade de não ser, renunciamos ao que só torna o nosso amor possível. A criação — ou a existência — não é, de facto, a luta vitoriosa de uma potência de ser contra uma potência de não ser; é, antes, a impotência de Deus perante a sua própria impotência, o seu poder de não não-ser, de deixar ser uma contingência. Ou: o nascimento em Deus do amor.
Por isso, não é tanto a inocência natural das criaturas que Kafka e Walser fazem valer contra a omnipotência divina, mas mais a inocência da tentação. Em ambos o demónio não é um tentador, mas um ser infinitamente susceptível de ser tentado. Eichmann, um homem absolutamente banal, que foi empurrado para o mal precisamente pelos poderes do direito e da lei, é a terrível confirmação com que o nosso tempo se vingou do seu diagnóstico.

Giorgio Agamben, A Comunidade que Vem, trad. António Guerreiro, Lisboa, Presença, 1993.



Hoje tive a sofrida oportunidade de encontrar, no tHe ULtiMaTe diSoRDer, o arrepiante documento que o M.I.T. deixou sair da sua investigação acerca dos custos humanos na guerra do Iraque.


[Título reeditado a 6 de Abril de 2007. Ver comentários.]

20 março 2007

Orthopolitismos

















Fénix
Katsushika Hokusai [葛飾北斎], 1847 a 1848.
Tinta sobre papel, 39,4 x 53,1 cm.
Uffizi, Florença.


Embora como um fantasma,
andarei levemente pelos campos de verão.

Katsushika Hokusai


Antes de mais quero avisar que esta posta foi já prometida no comentário posterior à posta Do bem viver que publica excertos da carta a Meneceu de Epicuro.

Porque se poderá dizer da reencarnação que é politicamente correcta? O que pode ter a reencarnação a ver com política, quando o assunto parece ser notoriamente religioso e a actualidade ocidental não acumula ambos os poderes numa só pessoa?

Não há dúvida que o assunto é religioso e não meramente parece, mas a componente política da continuação e manutenção de um bom estado das coisas parece reclamar a consciência da reencarnação. A política, como todos sabemos, trata dos assuntos da cidade, e a cidade, como tal, é o conjunto dos cidadãos socialmente contratados com direitos e deveres.

Pensando a política no momento fixo do seu acontecer, enquanto estratégia de resolução dos problemas imediatos, a reencarnação não tem qualquer lugar. Não se encontra a evidência da sua necessidade. Mas se pensarmos a política como gestora do contínuo evolutivo da cidade o caso muda de figura. Nesta mais abrangente relação temporal faz todo o sentido a implementação de credo numa consciência regressiva. E é aqui que o problema se torna de difícil classificação, pois a implementação de credos, à partida, nada tem a ver com política e sim com religião; todo o conjunto legislado de um sistema político separado da religião, advém de uma secular experiência pragmática do que está certo e errado para o bem-estar da cidade. O bem viver de todos os cidadãos, na medida possível, é o primeiro objectivo político. Isto sem falar da ilusão de não-credo de todos os actuais auto proclamados cépticos, que é assunto a desenvolver noutra ocasião.

Sendo assim, descobrindo nas regras políticas a existência verificável dos factos, não se apresenta como certa a fundação de crenças. Quer queiramos quer não, por maior ou menor romancismo, aceitar a reencarnação implica, até certo ponto que se codifica limite no ocidente, acreditar. Para uma sociedade que só reconhece a prova física num sistema de verificação experimental, será muito difícil aceitar provas de uma consciência mental remota, mesmo que igualmente verificáveis pela experiência. Sabemos que a mente existe mas não temos onde a localizar, já que esta depende da consciência e não há topos* para a última.

A confirmação de existência da reencarnação, tal como ela é feita no Budismo, não deixa de ser científica na sua verificação experimental, embora não seja possível a sua verificação física. Processa-se por métodos de sofisticação elevada no modo como se analisam as reacções mentais intuitivas do sujeito a ser analisado. E só depois de uma bateria interminável de testes se chega a verificar que uma dada criança poderá ter sido um mestre outrora falecido. Isto é, desta criança nunca se irá considerar que tem a identidade do mestre, é uma pessoa completamente única e individual que não se confunde com a outra. Simplesmente se diz que mantém algo da consciência do falecido, um seu determinado nível muito simples embora complexo: a consciência subtil. E no caso de uma pessoa que treina uma vida inteira para reconhecer em si este estado de consciência, defende a investigação filosófico-científica do Budismo para um reencarnado, torna-se possível manter algo existencial da identidade anterior. Logo, este indivíduo saberá reconhecer como seus — não são dele e sim do anterior — artefactos muito vulgares que não se distinguem de tantos outros de igual compleição entre os quais não havia maneira nenhuma de os descobrir senão por aturado conhecimento prévio. Esta pessoa reencarnada, portanto, somente é a pessoa anterior ao nível da dita consciência subtil. Sendo que esta consciência, que se alega manter depois da morte, indestrutível, em nada transporta a identidade da pessoa que faleceu para a nascida, somente perdura nela uma espécie de memória intuitiva que está tanto mais presente quanto mais se terá treinado este estado em vida. Como que uma subsunção da existência vivencial com a de uma espécie de mortificação artificial. Este estado de consciência subtil é um tal estado para nós que corresponde à nossa não existência individual física e até mental. A consciência subtil, que não deve confundir-se com a alma, é ainda anterior à mente na existência humana, e é pela presença desta durante a percepção clara e vívida daquela que, sob domínio da pessoa que tanto treinou para isso, algo da existência vivencial do indivíduo que morre pode passar para o indivíduo que nasce.
Isto faz com que a ideia que temos no ocidente de reencarnação se legitime tanto como um conto de fadas. Eu, Sara, nunca fui antes, nem seria possível remontar a minha identidade a uma existência passada. Nem princesa nem lavadeira. Contanto, algo pode manter-se, mas, segundo as investigações do Budismo Tibetano, só podemos manter alguma consciência individual que seja, enquanto consciência subtil, se tivermos experimentado a percepção dessa consciência em vida e, por muito hábito disso, retido os seus modos. Afirmar que a reencarnação, tal como a tentei descrever tão sucintamente quanto pude, não existe, é uma crença tão forte como a da afirmação da sua existência; e isto porque não temos meio de o verificar pessoalmente sem termos dedicado a vida a tal treino de morte (que se revela treino de vida). Porque se trata de um determinado treino da morte ao nível da consciência através da imaginação, assunto para o qual aconselho a leitura de Robert Thurman.
Para um suposto e auto considerado céptico, não só a nossa ideia de reencarnação surge como um disparate, como a do Budismo não se aceita provada. Os materialistas radicais, muito em voga durante o séc. XX, não aceitam qualquer prova que não seja fisicamente palpável. E como tal é para nós ocidentais incontornável, a reencarnação não vingará como realidade confirmada mas sim como um credo que podemos ou não votar.

No entanto, o facto de ser necessária a constituição de um credo, já que a reencarnação não seria aceite como realista pelo mundo político ocidental sem prova física dada pela nossa ciência, materialista radical, não implica que a reencarnação não seja o que de mais politicamente correcto há no ponto de vista da preservação do nosso bem viver. Estamos na ordem das técnicas de manutenção de conquista. O problema fundamental da política recente já não é tanto o da segurança mas sim o da economia, e mais recentemente ainda juntou-se à economia a ecologia. Tanto uma como a outra tratam da oikos**, que é a nossa casa comum. E numa época globalizada como a nossa, em que tantas culturas se fundiram em muito poucas, esta oikos** é o nosso abrangente ecossistema. Está no bom cuidado da nossa casa (eco) que se mantém ou proporciona o bem viver. E é aqui que faz todo o sentido falar em reencarnação.

Podíamos alegar que a preservação da nossa casa deve depender da boa vontade e boa fé de todos os cidadãos do mundo, que é por aí que se resolve o problema, mas esta alegação é tão ilusória como imaginar que a ciência materialista radical vai aceitar a reencarnação como um dado de facto. A verdade é que países como os Estados Unidos da América, que têm um grande peso mundial, não estão a tomar medidas políticas que apostem na preservação ecológica. A nossa casa continua e continuará a ser poluída e o aquecimento global não para de aumentar. Mas porquê isto? Porque se tomam medidas prejudiciais para a Terra quando é o único lugar no universo que nos é dado possível viver? Já nem falo da tremenda falta de ética que subsiste nesta acção despudorada. Em prol de uma economia crescente, só para alguns, claro, prejudica-se uma ecologia de todos que está já tão perigada. Não vou defender que a economia deve ser posta de lado para se tratar da ecologia, de ambas depende o ecosistema, mas se não se tomam urgentes medidas em defesa da ecologia em pouco tempo não haverá mais economia a fazer.

Não será por puro egoísmo que se tomam as medidas que se têm tomado a favor da poluição? Não será porque quem toma estas medidas está com a ideia de que as consequências que delas advêm não cairão sobre si? O aquecimento global começa a dar sinais da sua reclamação, mas isto, pensam os políticos egoístas e irresponsáveis, não será nem para os seus netos. Porque deverão eles estar a preocupar-se com uma coisa que é nada para eles? Cada um trata de si safando-se como melhor pode, por isso, se a solução de hoje é continuar a queimar petróleo e lançar tantos outros lixos para a ecoesfera é isso que tem de ser feito. E os outros que aí vêm para depois quando vier a consequência? Não importa. Não é por se preocuparem com mais que si próprios que estes políticos vão tomar decisões para o futuro.

Eis que começa a fazer sentido a implementação de um novo paradigma de entendimento para estas tão irresponsáveis e imediatistas medidas económicas. Se todos os cidadãos tivessem a reencarnação como um dado adquirido, e por aí soubessem que haveria sempre a possibilidade de um determinado regresso, mesmo que noutra identidade, teriam mais cuidado com a provável retaliação da natureza.

Mas, como fazer isto? Voltamos à dificuldade inicial. Como se institui politicamente a ideia do regresso sem recorrer à crença religiosa quando a nossa ciência aposta radicalmente na superficialidade da matéria?

* Lugar
** Casa

18 março 2007

Oxidação

A 18 de Março de 2007 deixou de poder encontrar-se um poemeto que tinha pubicado à catorze dias. A causa desta misteriosa oxidação continua desconhecida e desconfio que não venha a desvelar-se. Resta um espaço esvaziado onde estiveram já catorze linhas de texto e a apontar o lugar mantém-se a marca de uma oxidação passada. O símbolo do entre que se sub-repta ao visível.

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