Que o amigo seja para vós a festa da terra

24 fevereiro 2007

Do bem viver

Epicuro a Meneceu, saudações.

Mesmo que jovens, não devemos hesitar em filosofar. E nem sequer na velhice devemos cansar-nos do exercício filosófico. Pois para ninguém é demasiado cedo nem demasiado tarde para a purificação da alma. Aquele que diz que a hora de filosofar não cehgou ou já passou, assemelha-se ao que afirma que a hora não chegou, ou já passou, para a felicidade. São, por isso, chamados a filosofar o jovem como o velho. O segundo para que, envelhecendo, permaneça jovem em bens por gratidão para com o passado. E o primeiro para que jovem, seja também um antigo pela ausência de receio em relação ao futuro. Devemo-nos, pois, preocupar com aquilo que cria a felicidade, já que com ela possuimos tudo e sem ela tudo fazemos para a obter.
Põe em prática e medita nestes ensinamentos de que constantemente te falei, tendo consciência que são os elementos do bem viver. (...)



[Início da Carta a Meneceu. De seguida excertos da sua continuação.]



(...) Acostuma-te nesta questão a pensar que para nós a morte nada é, pois todo o bem e todo o mal residem na sensação, e a morte é a erradicação das sensações. (...)

(...) É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que nos causa perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos a morte não é, e quando a morte é somos nós que já não existimos! (...)

(...) O sábio, pelo contrário, não teme já não estar vivo: viver não lhe pesa sem que por isso ache que é um mal não viver. Tal como não escolhe nunca a alimentação mais abundante mas a mais agradável, assim como não procura o tempo mais longo da vida mas o mais agradável. (...)

(...) É, além disso, necessário considerar que alguns dos nossos desejos são naturais, outros vãos, e que se alguns dos nossos desejos naturais são necessários, outros são... apenas naturais. (...)

(...) Pois é por isso que tudo fazemos por evitar o sofrimento e a inquietação. Quando um tal estado se realizou em nós [a bem aventurança], toda a tempestade da alma se apazigua, já não tendo o ser vivo de correr como que atrás de qualquer coisa que lhe falta, nem de procurar com que prencher o bem da alma e do corpo. (...)

(...) Eis a razão que nos leva a dizer que o prazer é o princípio e o fim da vida bem aventurada. É ele que reconhecemos como bem primordial nascido com a vida. É nele que encontramos o princípio de toda a escolha e regeição. É para ele que tendemos, julgando todo e qualquer bem de acordo com o efeito que tem na nossa sensibilidade.(...)
(...) Consideramos muitas dores preferíveis aos prazeres desde que um prazer para nós maior deva chegar após longos sofrimentos. Todo o prazer é um bem, pelo facto de ter uma natureza apropriada à nossa, sem por isso dever ser necessariamente colhido. Simetricamente, toda a espécie de dor é um mal, sem que por isso se deva obrigatoriamente fugir de todas as dores. (...)
(...) Reagimos, em certos casos, ao bem como se fosse um mal, ou, inversamente, ao mal como se fosse se de um bem se tratasse. (...)

(...) Os alimentos simples satisfazem tanto como alimentos faustosos, logo que suprimida a dor que resulta da falta: o pão de cevada e a água concedem um prazer extremo desde que, com apetite, os levemos à boca. (...)
(...) Pois nem a bebida, nem os festins contínuos, nem os rapazes ou as mulheres de que se usufrui, nem o deleite dos peixes e de tudo aquilo que pode haver numa mesa faustosa estão na origem de uma vida feliz, mas o raciocínio sóbrio, que procura as causas de toda a escolha e regeição e afasta as opiniões através das quais a maior perturbação se apodera da alma.

O princípio de tudo isto e o maior dos bens é a prudência. É por isso que, a prudência donde provêm todas as outras virtudes, se revela, em última análise, mais preciosa que a filosofia: ensina-nos que não é possível viver com prazer sem prudência, sem honestidade e sem justiça, nem com essas três virtudes viver sem prazer. As virtudes são, com efeito, conaturais com o facto de viver com prazer e viver com prazer é indissociável delas. (...)


Epicuro, Carta Sobre a Felicidade, trad. João Forte, Lisboa, Relógio d'Água, 1994.


"A vida a que chamo agradável não é possível se nela não existir virtude."

Séneca, Da Vida Feliz, trad. João Forte, Lisboa, Relógio d'Água, 1994.

1 <:

sara disse...

Poderiamos dizer que a morte é algo, que a consciência não se vai e até podemos, talvez, reencarnar. Isto não estaria contra a ideia de tantos gregos antigos como Epicuro. Mas o seu ponto de vista, julgo, é outro mais atento ao que se é neste mundo. E isso tem que ver com as possibilidades desta vivência.

Uma vez morta eu não mais serei, e se a minha consciência profunda predura isso já nada tem a ver com este corpo e com esta mente. A consciência subtil, como dizem os budistas, é algo muito anterior a todas as categorias de identidade que conhecemos. Essa consciência seria o continuável. Caso isso seja mesmo assim. Não me ponho a dizer isto como céptica, que não sou, de todo, mas também não o posso garantir, somente julgar se faz sentido ou não.

Acredito ou não acredito que haverá um depois da morte. Acredito ou não acredito que se trata de um nascimento ou um entre nascimentos. Mas o que não posso acreditar é o que Epicuro condena. O que agora somos e como nos reconhecemos, quer seja pela educação ou pela natureza, não predurará para além do que deixarmos em memória. O que somos agora não mais voltará a ser.

Sinto-me, contudo, inclinada em aceitar a ideia de consciência subtil, e que com muito treino essa consciência poderá conseguir manter memórias.

Será uma pulsão romântica, a que me leva a desejar que assim seja? É, pelo menos, o que de mais politicamente correcto se pode encontrar.
Eis ai está uma ideia para uma futura posta. O que há de politicamente correcto na reencarnação.

Resumindo e concluindo, este senhor antigo tinha razão em dizer que a morte nada é para nós porque nesse momento o nosso corpo está inanimado, sem função biológica para sentir a dor. E como a nossa ideia de medo da morte tem a ver com a dor e os desconfortos que dela advêm, da dor, no momento em que não mais tivermos dor não haverá medo.

Será assim?

Agora perguntar-se-ia... Então e a dor emocional? Então e a dor espiritual? São essas dores para nós resultado de uma contextualização corpórea? Pois é..., não podemos saber.

Será que o conteúdo emocional deriva do corpo? Podemos falar de uma existência espiritual fora do corpo?

A pragmática deixa-nos sem resposta.

O certo é que não há boa vida sem virtudes. Mas nunca nos podemos esquecer dos pontos de vista, tantos quantas forem as existências.

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