Que o amigo seja para vós a festa da terra
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10 março 2010

Is The Catholic Church A Force For Good In The World? Ou será que deviamos falar do Tempo?

Stephen Fry on The Intelligence2 Debate 2009

A pergunta que compete fazer-se a estes brilhantes comunicadores, como é o caso de Stephen Fry, que me deixou agarrada ao ecrã sem deixar passar uma única sílaba do seu elequente e muitíssimo bem articulado discurso, não é se a Igreja Católica é ou não uma força para o bem no mundo.


Como sistema político que é (e que tem um estado próprio tal como indica Fry tão acertadamente), passa pelos seus altos e baixos, por vezes faz melhor, por vezes pior, mas uma coisa é certa e sabida. A Igreja Católica NÂO é uma força para o bem no mundo, e não é pode ter ouvido um discurso tão convincente como este que uma pessoa esclarecida chega a esta cnclusão. Haverá seguramente muitos indivíduos patrocinados por esta igreja que o são, como foi o caso gritante da Madre Teresa, mas a instituição, porque sim, trata-se de uma instituição, ou melhor, para não adoçar o pão ázimo, uma corporação com tudo o que isso tem de mau. A resposta seria:

The Catholic Church is a force for their own good and the world not only comes in second place as it has no place at all if it does not benefit the church.

Mas, retornando ao que me levou a iniciar esta posta, a pergunta que faço a qualquer proponente do ateísmo, que sem dúvida não pretende manipular o mundo como a Igreja Católica ainda faz em seu proveito, é se a solução que apresentam traz alguma proximidade com o que é a experiência do humano. O ateu, só por ser ateu, fundamentalista ou não, está em negação automatica de um deus, ou Deus, seja como for, deuses, etc, em prol de como bem disse Fry, mais uma vez, aquilo em que acredita é a Iluminação, não a Ilimination mas o Enlightment. E o Enlightment que porpõe, ou o exemplo que dá, incontornável, é o da ciência. Ora, e o que é isto de ciência, perguntamos nós? Foi Galileu que deu os primeiro passos, mesmo retirando as suas palavras depois da tortura, receando o destino que a Igreja Católica ofereceu a Copérnico. A ciência é, como disse platão (episteme), uma crença verdadeira justificada. É verdade, é uma crença, mas é uma crençe que tomamos como verdadeira porque está justificada. Isto é certíssimo, tão certo quanto nada do que se escreve na Bíblia pode ter ou terá alguma vez (excepto no advento da viagem temporal) justificação, ou verificação, possível. Mas, e o ateísmo? Tem o ateísmo algum grau científico ele mesmo? Terá a ciência, em último caso, o grau científico a que se arroga? Como se pode advogar meramente o termo "ateu"? Sabemos que deuses, deus, ou Deus, não existe(m)? Podemos justiviar, verificar e provar a sua inexistência? A resposta é simples, tanto para uns quando para os outros. NÃO!! Simplesmente não é possível saber.


Um ateísta, ou um católico, muçulmano, etc, etc, etc, diriam que isso é o argumento do agnóstico, e que para o agnóstico nada é possível saber. Mas uma coisa é certa, ao contrário que dizia Descartes, tenho a certeza de uma coisa e só dessa coisa mesma, estou aqui a escrever emocionadamente sobre o que acabei de ouvir pela palavras de um dos melhores oradores que já ouvi falar no assunto.


Não, não sou agnóstica. Não, não sei se deuses, deus ou Deus existe(m), nem ponho isso em questão, mas uma coisa sei de facto, e, chamem-lhe o que quiserem, há uma coisa que existe acima de tudo, sobre tudo, sob tudo e por tudo, e essa é coisa é a mais simples e complexa de todas, e não vale a pena chamar-lhe mais nomes que o simples nome que ela tem. Se há alguma coisa que existe é o Tempo. E se há quem diga que o tempo é deuses, deus ou Deus, então qual é ou onde está o católico, muçulmano, etc, etc, etc, qual é o ateu que me vai dizer algo em contra? Talvez me diga que não, que não é um deus ou Deus, mas isso é tão vazio como dizerem-me que o Tempo é a ponte que ele, ou eles, ou Ele fez/fizeram para nos dar lugar. Em suma... non sense. O Tempo, na sua própria inacessibilidade a meros humanos como nós, no máximo, é ele mesmo, e não houve ninguém como o Santo Agostinho para nos mostrar quanto impossível é saber do que se trata.


Contudo, para resumir, o Tempo, esse sim, à sua própria maneira, e a tentar combater todo o disparate e asneira (tremenda hubris) que fazemos, é quem faz algo de bom pelo mundo.

P.S. Digo Tempo mas podia dizer Existência, mas como não quero correr o risco de soar a existencialista, que deveras não sou, perfiro chamar-lhe Tempo, é o Ser do Tempo. Tão "simples" quanto isso.

21 janeiro 2010

Since 'It' Was
























Belém 2010


What urged me to come
and say about was the misfortune I had to endure last week in Belém.

I left the ride
near the (summer) restaurants
and set in my own way,
enjoying the rain?,

glad to go by my favourite tree
in Belém. The way to CCB.

For my surprise, as I was going forward, a memory lapse.

Yes, [some time had passed since my last visit to these flat gardens, and I forgot]
where the tree used to stand.

So strange,
never in my life this had happen
before, I must be getting old.

All I could see there were the other trees,
with ‘whom’ I never develop a friendship, and,
it seemed,

all the seagulls of the river mouth were there too.

Unusual.

Where is my tree? I thought.
— As if they were ever mine—
But suddenly I came to realize
they
was probably someone's
trees.
Yes, trees,

the trees I was happy to be passing by,
since I decided early in the morning to go
and see Bacon thinking about Ingres, was
an embrace tree of two distinct trees, as if
they could be anthropomorphized into a couple.

I kept on going
forward, intrigued, and
it wasn't till I got very close
that I understood my memory is [still in good shape.
What a horrifying image that was,]
to know about my own memory

with the death of a friend.
Well, I wouldn’t say it was death what petrified me.
Death is hurtful but it’s natural. One way or another
we all expect death.

Call it a new beginning...

Love!
What ever...

For all I know
(or knew) this tree was a monument.
Old and crumbling, but very strong
and capable of many more
friendships like the one
I was happy to enjoy.

Someone had passed and
decided it was no more and
took her stand away, leaving
just the roots for all to see.

And if death was the issue, my friend
was stripped from the new beginning.

She still exists in me, but no new friends will come
to appreciate how wonderful it could be,
that two very different trees
would grow side by side from the same ground
into a whirling twist,

dancing to the sky. Isn’t that what trees do with the wind?
Why take ‘it’ away?

01 maio 2008

Imagem mental






The Nativity Story

Catherine Hardwicke 2006

Na origem do simulacro está a imagem mental. Esse ser caprichoso e impalpável reflecte o mundo e, ao mesmo tempo, sujeita-o à fúria combinatória, usando-lhe as formas numa proliferação interminável. Gera uma força prodigiosa, o terror perante aquilo que se vê no invisível. Tem todas as características do arbitrário e do que nasce nas trevas, do indistinto, como outrora talvez tenha nascido o mundo. Mas, desta vez, o caos é a vasta tela tenebrosa atrás dos nossos olhos, sob a qual se desenha a dissipação fosfénica. Aquela formação das imagens repete-se a cada instante, em cada indivíduo. Mas a sua particularidade não reside apenas nisso. Quando o simulacro se apodera da mente, quando começa a agregar-se a outras figuras afins ou opostas, a pouco e pouco ocupa o espaço da mente numa concatenação cada vez mais minuciosa. Aquilo que se tinha apresentado como a própria maravilha da aparição, desligada de tudo, associa-se agora, de simulacro em simulacro, a tudo.
Numa extremidade da imagem mental existe a estupefacção pela forma, pela sua existência auto-suficiente e soberana. Na outra extremidade, existe a estupefacção perante a cadeia dos laços que reproduzem na mente a fatalidade da matéria. É difícil ver esses dois extremos que sobressaem no leque do simulacro, e é insuportável vê-los simultaneamente. Para os gregos, a figura dessa visão foi Helena, a beleza encerrada no ovo da fatalidade.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Lisboa, Cotovia, 1990.

13 janeiro 2008

Em cada uma dessas vidas
















Ariadne, Venus e Bacchus
Tintoretto, 1576.
Óleo sobre tela, 146 x 157 cm.
Palazzo Ducale, Veneza.


Ao contrário das personagens dos romances, vinculadas a um único gesto, as figuras dos mitos passam por muitas vidas e muitas mortes. Mas em cada uma dessas vidas e dessas mortes estão compreendidas, e repercutem-se, todas as outras. Só quando nos apercebemos da existência de uma coerência inesperada entre incompatíveis é que podemos dizer que transpomos o limiar do mito.


Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Lisboa, Cotovia, 1990.

01 janeiro 2008

Vou vê-las est'ano




















Dom-Fafe e Cerejeira-do-Japão
Katsushika Hokusai, 1834.
Da série Flores Pequenas.
Xilogravura a cores, 25,1 x 18,2 cm.
Honolulu Academy of Arts, Honolulu.


Embora despontem
já as flores de cerejeira,
vou vê-las este ano
com perfume de ameixeira
enchendo o meu coração.



Isumi Shikibu
Tanka, org e trad. Luísa Freire, Lisboa, Assíro & Alvim, 2007.

07 setembro 2007

Bergauf



















Aveiro 2006

Não vemos nada,
só nos chega a luz.

Ver algo
será certamente
iluminá-lo.

12-03-2004

28 agosto 2007

Free Hugs


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24 agosto 2007

Esta viagem
















A Morte de Sócrates
Jacques-Louis David, 1787.
Óleo sobre tela, 129,5 x 196,2 cm.
The Metropolitan Museum of Art, Nova York.


(...) Já com o banho tomado, sentou-se junto de nós e pouco mais conversou. O servidor dos Onze veio entretanto e, chegando-se ao pé dele, eis que diz:

— Ao menos, Sócrates, não terei de censurar em ti o que censuro noutros, que se insurgem e me amaldiçoam quando, por imposição dos arcontes, lhes venho comunicar a ordem de beber o veneno… A ti, conheci-te bem durante este tempo: foste o homem mais generoso, mais aprazível e excelente de quantos por aqui passaram! Estou certo de que também agora não te insurgirás contra mim mas contra os verdadeiros culpados, que conheces bem! Agora… sabes o que vim anunciar-te. Adeus, e trata de aceitar da melhor forma a sorte inevitável.
E, chorando, voltou costas e afastou-se. Sócrates ficou ainda a olhá-lo:

— A ti também, adeus! Por minha parte farei como dizes — respondeu. E, voltando-se para nós, comentou: — Que amável, este homem! Durante todo este tempo não deixava de aqui vir, aqui ficava por vezes a conversar comigo. Excelente criatura e que generosas as suas lágrimas! Mas vamos, Críton, tratemos de obedecer-lhe; que me tragam o veneno, se já estiver preparado; se não, que o preparem.
E diz Críton: — Mas, salvo o erro, Sócrates, o Sol ainda está nas montanhas e não se pôs por enquanto! De resto, sei de outros que só o tomaram mesmo muito mais tarde e que, depois de a ordem lhes ser dada, ainda comeram e beberam a seu bel-prazer, alguns mesmo na companhia daqueles que mais desejavam. Vamos, não te apresses, que ainda há tempo.
Replicou-lhe ele: — É natural, Críton, que esses a quem te referes assim procedam: é que estão convencidos de que lucram com isso. Mas, por mim, é também natural que não proceda como eles, pois, estou convicto, nada lucraria em beber o veneno um pouco mais tarde, a não ser tornar-me ridículo aos meus próprios olhos, com esse apego a uma vida que já deu o que tinha a dar… Portanto — concluiu —, trata de obedecer-me e não procedas de outro modo.
Ouvindo isto, Críton fez sinal ao escravo que estava de pé. Este saiu e, decorrido ainda bastante tempo, voltou com o homem encarregado de lhe ministrar o veneno, que já vinha moído na taça. Ao vê-lo, Sócrates interpelou-o:

— Muito bem, meu caro: tu, que percebes destas coisas, diz lá: que é necessário fazer?

— Apenas — explicou — passear um pouco depois de beberes o veneno; quando sentires as pernas pesadas, deitas-te então, e o veneno actuará por si.
Ao mesmo tempo estendeu a taça a Sócrates. E com perfeito à-vontade, Equécrates, sem que a mão lhe vacilasse ou se alterasse a cor de rosto, pegou nela e, fixando no homem o seu habitual «olhar de touro», inquiriu:
— Que dizes, se me servir desta bebida para uma libação? É ou não lícito?
— Por nossa parte, Sócrates — respondeu —, preparamos a dose que achamos conveniente.
— Entendo — disse. — Mas, pelo menos, ser-me-á permitido, se é que não devo mesmo, dirigir uma prece aos deuses para que me tornem propícia esta viagem para o Além… Essa é pois a minha prece e oxalá assim seja!
E dizendo isto, segurando a taça com a mesma naturalidade e serenidade de espírito, despejou-a de um só trago. Nós, que de há algum tempo a essa parte ainda conseguíamos, mais ou menos, reter o pranto, quando o vimos beber até ao fim, não pudemos mais: a mim, pelo menos, as lágrimas corriam-me perdidamente, a ponto de esconder o rosto para chorar à vontade — não por ele, decerto, mas pela desgraça de ficar, eu, privado de um companheiro como este! Críton, ainda primeiro do que eu, incapaz de conter as lágrimas, levantou-se e saiu. Quanto a Apolodoro, que já antes não deixara de chorar, esse soltava rugidos tais, por entre lágrimas e lamentações, que, ao ouvi-lo, não havia ninguém a quem não se partisse o coração — exceptuando, naturalmente, o próprio Sócrates, que exclamou:

— Mas que é isto, meus caros?... Que estão a fazer? Eu, se mandei sair as mulheres, não foi por outro motivo — para que não perturbassem… Sempre ouvi dizer que se deve morrer em serenidade. Sosseguem e dominem-se!
Ouvindo isto, envergonhámo-nos e retivemos o pranto. Ele então deu uns passos em volta, até que disse sentir as pernas pesadas e se deitou de costas — tal como o homem prescrevera. Entretanto, o que lhe ministrara o veneno, palpando-lhe o corpo, observava-lhe de tempos a tempos os pés e as pernas. Em seguida, carregando com força num pé, perguntou-lhe se ainda sentia, ao que ele respondeu que não. Recomeçou depois pela parte inferior das pernas; e, assim subindo, nos fez ver que se tornava frio e hirto. Sem deixar de o palpar, observou-nos que, quando lhe atingisse o coração, seria o fim… E já praticamente toda a região do ventre estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto — pois tinha-o, com efeito, coberto —, disse estas palavras, as últimas que proferiu:

— Críton, devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam!
(...)


Platão, Fédon, trad. Mª Teresa Schiappa de Azevedo, Coimbra, Minerva, 1998.

21 agosto 2007

Haverá mais
























Agosto 2007

Es wird noch ein Aug sein,
ein fremdes, neben
dem unsern: stumm
unter steinernem Lid.

Kommt, bohrt euren Stollen!

Es wird eine Wimper sein,
einwärts gekehrt im Gestein,
von Ungeweintem verstählt,
die feinste der Spindeln.

Vor euch tut sie das Werk,
als gäb es, weil Stein ist, noch Brüder.


Haverá mais um olho,
estranho, junto ao
nosso: mudo
sob a pálpebra de pedra.

Vinde, cavai as vossas galerias!

Haverá uma pestana,
virada para dentro, na rocha,
temperada com lágrimas não choradas,
o mais fino dos fusos.

À vossa frente faz ela o trabalho,
como se houvesse, porque há pedra, ainda irmãos.


Esperança
Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006.

12 agosto 2007

Ombro a ombro




















Lisboa 2005

Du darfst mich getrost
mit Schnee bewirten:
sooft ich Schulter an Schulter
mit dem Maulbeerbaum schritt durch den Sommer,
schrie sein jüngstes
Blatt.

Podes confiante
acolher-me com neve:
sempre que eu ombro a ombro
com a amoreira atravessava o verão,
gritava a sua mais jovem
folha.

Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006

21 julho 2007

Der Dorn















































Borba 2005


Stille! Ich treibe den Dorn in dein Herz,
denn die Rose, die Rose
steht mit den Schatten in Spiegel, sie blutet!
Sie blutet schon, als wir mischten das Ja und das Nein,
als wirs schlürften,
weil ein Glas, das vom Tisch sprang, erklirrte:
es läutete ein eine Nacht, die finsterte länger als wir.

Wir tranken mit gierigen Mündern:
es schmeckte wie
Galle,
doch schäumt’ es wie Wein —
Ich folgte dem Strahl deiner Augen,
und die Zunge lallte uns Süße…
(So lallt sie, so lallt sie noch immer.)

Stille! Der Dorn dringt dir tiefer ins Herz:
er steht im Bund mit der Rose.

Silêncio! Enterro o espinho no teu coração,
porque a rosa, a rosa
está com as sombras no espelho e sangra!
Já sangrava, quando nós misturámos o Sim e o Não,
quando os bebemos,
porque um copo, que caiu da mesa, tilintou:
repicou numa noite que escureceu durante mais tempo do que nós.

Bebemos com bocas ávidas:
sabia a fel,
no entanto espumava como vinho —
Eu segui o brilho dos teus olhos
e a língua balbuciou doçuras…
(E balbucia, balbucia ainda.)

Silêncio! O espinho penetra-te mais fundo no coração:
está unido com a Rosa.

Silêncio!
Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006.

19 julho 2007

O que segura o lótus
























Avalokiteshvara
Tibete, Nepal ou Butão.
Tangka, pigmento sobre seda (kesi).

(…)

DL — (…) Os chefes religiosos, aqui e ali, proclamam alto e bom som que ocupam este terreno espiritual, que é seu apanágio. No seu entender, se alguém rejeita a religião, rejeita ao mesmo tempo toda a experiência espiritual.

JCC — O que é perfeitamente abusivo. Porque estaria a vida espiritual necessariamente ligada a qualquer crença sobrenatural? Poderíamos quase dizer o contrário, que a fé é o abandono do espírito.

DL — Realmente poder-se-ia dizer isso. Mas não procuro desviar ninguém da sua fé, se ela for praticada com tolerância. Veja-se, entretanto, aonde pode conduzir a confusão entre o religioso e o espiritual: imaginemos um homem que fala da noção de benevolência ou de perdão, ou ainda de compaixão, esta atitude, bem o sabe, é um dos fundamentos do budismo. Um outro homem, que não tem qualquer preocupação de ordem religiosa, escuta o primeiro e diz encolhendo os ombros: isso não passa de religião, não estou interessado.

JCC — Faz mal, naturalmente.

DL — É evidente! Caiu numa armadilha grosseira de vocabulário! As palavras «compaixão» ou «caridade» cegaram-no. Ora, trata-se de qualidades humanas, puramente humanas. Não tivemos necessidade de uma revelação divina para as adquirir ou descobrir. (…)

(…)

JCC — O Ocidente interrogou-se longamente sobre esta pretensa liberdade. Não somos comandados pelo meio em que nascemos, pelas crenças que nos envolvem, pela nossa infância, por todos os elementos mais ou menos claros que nos compõem?

DL — É evidente. Daí a dificuldade dessa tarefa. Mas posso dizer que num certo nível de reflexão, o homem teve sempre a escolha. Ele pode adquirir esta liberdade, libertar-se de tudo o que o bloqueia. E deve fazê-lo. Disse um dia que tanto quanto me parece, Deus se deixou dormir algures. Como deve perceber, estava a brincar, pois não levamos em conta a existência de um Deus criador. Mas se é verdade que Deus adormeceu, cabe-nos a nós acordá-lo.

(…)

JCC — Pode também sobreviver-se sem religião?

DL — Naturalmente. (…) Tudo parte de nós. De cada um de nós. As qualidades indispensáveis são a paz de espírito e a compaixão. Sem elas, nem vale a pena tentar. Essas qualidades não só são indispensáveis, como também inevitáveis. Como já lhe disse, encontramo-las em nós se nos dermos ao trabalho de as procurar. Podemos rejeitar toda a forma de religião, mas não podemos rejeitar fora de nós a compaixão e a paz de espírito.

(…)


Dalai Lama & Jean-Claude Carrière, A Força do Budismo, Lisboa, Difusão Cultural, 1995.

10 julho 2007

Ahimsa
































God is truth
the way to truth
lies through
ahimsa
(non violence)

Sabarmati
13-3-1927 M.K.Gandhi

Deus é a verdade,
o caminho para a verdade
encontra-se através da ahimsa
(não-violência)

trad. nossa
Peter Rühe, Gandhi, London, Phaidon, 2001.


(…)
A minha experiência constante convenceu-me de que não há outro Deus senão a verdade. E se todas as páginas deste capítulo não proclamarem ao leitor que o único meio para a realização da verdade é a Ahimsa, devo concluir que todo o meu trabalho de escrevê-las foi em vão. E, mesmo que os meus esforços nesse sentido sejam infrutíferos, quero que os leitores saibam que foi o veículo, e não o grande princípio, que falhou. Depois de tudo, por mais sinceras que tenham sido as minhas buscas da Ahimsa, elas não deixaram de ser imperfeitas e inadequadas. Os pequenos vislumbres que possa ter tido da verdade dificilmente podem exprimir o seu brilho indescritível, que é um milhão de vezes mais intenso que o do Sol, que vemos diariamente com os nossos olhos. Com efeito, o que consegui perceber foi apenas o que há de mais fraco e trémulo nessa poderosa fulgurância. Mas posso assegurar que, como resultado das minhas experiências, uma perfeita compreensão da Verdade só pode resultar da completa percepção da Ahimsa.

Mohandas K. Gandhi, A Minha Vida e as Minhas Experiências com a Verdade, Lisboa, Bizâncio, 2006.


Fotografia de Peter Rühe

03 julho 2007

Chenrezig
























Sadaksari Avalokitesvara
Nepal ou Tiebete, entre séc. XIII e séc. XIV.
Cobre dourado, 17,5 cm.
Colecção privada, E.U.A.













Om Mani Padme Hum
…..Om………….Joia………………..Lotus………….. como Om
……………….……..… ….compaixão.…… …..….…….sabedoria

Sagrado coração de diamante.


Tradução da Escola Ogyen Kunzang Choling de Lisboa

27 junho 2007

A expressão que lhe pertence



















Alcochete 2006








Heraclito

I confini dell'anima, nel tuo andare, non potrai scoprirli,
neppure se percorrerai tutte le strade:
così profonda à l'espressione che le appartiene.

Giorgio Colli, La Sapienza Greca, Eraclito, Milano, gli Adelphi, 1996.


A fronteira da alma, no teu andar, não poderás descobrí-la,
nem se percorreres todos os caminhos:
assim profunda é a expressão que lhe pertence.

11 junho 2007

O sentido



















Qual é o sentido da vida?

05 junho 2007

Despertar



















Alentejo 2006

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.


Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Lisboa, Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

Duma flor



















Alentejo 2006


Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.


Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Lisboa, Fundação
Eugénio de Andrade, 2005.

04 junho 2007

A festa da terra
















Marrocos 2002


(...)
Não vos ensino o próximo mas o amigo. Que o amigo seja para vós a festa da terra e o pressentimento do sobre-humano.
Ensino-vos o amigo de coração a transbordar. Mas é preciso saber-se ser esponja, quando se quer ser amado por corações que transbordam.
(...)


Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Lisboa, Relógio D'Água, 1998.

29 maio 2007

Erws



















Natal 2004


Ali, onde o espírito deixa de ser princípio, deixa igualmente de ser fim. Daí a conexão rigorosa entre o «pensamento» colectivo, sob todas as suas formas, e a perda de sentido, do respeito das almas. A alma é o ser humano considerado como tendo valor em si. Amar a alma de uma mulher, é não pensar nessa mulher em função do seu próprio prazer, etc. O amor já não sabe contemplar, quer possuir (desaparecimento do amor platónico).

É um erro desejar ser compreendido antes de se ser elucidado por si mesmo a seus próprios olhos. É procurar prazeres na amizade, e não méritos. É qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. É preciso recusá-la para se ser digno de a receber: ela é da categoria da graça («Meu Deus, afastai-vos de mim...»). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Toda a ilusão de amizade merece ser destruída. Não é por acaso que nunca foste amado... Desejar escapar à solidão é uma cobardia. A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se (é uma virtude). Abolir toda esta margem de sentimento, impura e enevoada. Schluss!
Ou melhor (pois não é necessário desbastar-se a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na amizade, não passe por alterações efectivas deve passar por pensamentos ponderados. É absolutamente inútil privar-se da virtude inspiradora da amizade. O que deve ser severamente proibido, é sonhar com os prazeres do sentimento. É corrupção. E é tão estúpido como sonhar com a música ou com a pintura. A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre consiste, simplesmente, no facto de que ela existe. Aos vinte e cinco anos é mais que tempo de acabar radicalmente com a adolescência...

Não te deixes prender por nenhum afecto. Preserva a tua solidão. No dia, se alguma vez ele chegar, em que o verdadeiro afecto te for dado, não haverá oposição entre a solidão interior e a amizade, pelo contrário. Será mesmo por esse sinal infalível que o reconhecerás. Os outros afectos devem ser severamente disciplinados.

As mesmas palavras (ex., um homem diz à sua mulher: amo-vos) podem ser vulgares e extraordinárias, segundo o modo como são pronunciadas. E este modo depende da profundidade da região do ser de onde procedem, sem que a vontade possa fazer algo contra isso. E, por meio de uma harmonia maravilhosa, vão tocar, naquele que escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tiver discernimento, o que valem aquelas palavras.

O favor é permitido precisamente porque constitui uma humilhação ainda maior do que a dor, uma prova ainda mais íntima e mais irrecusável de dependência. E o reconhecimento é prescrito por esta razão, porque é nele que reside a utilização que se faz do benefício recebido. Mas isto deve constituir uma dependência relativamente ao acaso e não a um ser humano específico. É por isso que o benfeitor tem a obrigação de ser completamente destituído de benefício. E o reconhecimento não deve, em nenhum grau, constituir um afecto porque é nisso que reside o reconhecimento dos cães.

O reconhecimento é, em primeiro lugar, o feito daquele que socorre, se o socorro for puro. É devido pelo socorrido apenas a título de reciprocidade.
Para experimentar uma gratidão pura (pondo de lado o caso da amizade), preciso de pensar que me tratam bem, não por piedade, ou por simpatia, ou por capricho, a título de favor ou privilégio, nem tão-pouco por efeito natural do temperamento, mas por desejo de fazer o que a justiça exige. Deste modo, aquele que me trata assim, deseja que todos aqueles que estão na minha situação sejam tratados assim por todos os que estão na dele.


Simone Weil, A Gravidade e a Graça, Lisboa, Relógio D'Água, 2004.

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