Que o amigo seja para vós a festa da terra

09 março 2007

Ponto de vista

















A Grande Onda de Kanagawa
Katsushika Hokusai [
葛飾北斎], 1831. Das Trinta e seis vistas do Monte Fuji.
Ukiyo-e [浮世絵] (retratos do mundo flutuante), estampa japonesa.
Impressão policromática com blocos de madeira, 25,4 x 37,1 cm.
Hakone Museum, Japão.

A axonometria é um sistema de representação visual em que a profundidade perspéctica não é regida pelo centrismo dos pontos de fuga. Nenhum elemento representado depende dos pontos a partir dos quais se traçam as linhas rectas que, sendo de relação cónica entre si, se abrem até uma determinada distância considerada próxima; na qual o aumento de tamanho do objecto indica para mim maior proximidade. Na perspectiva axonométrica, em que as linhas de profundidade, por serem paralelas, não convergem para pontos de fuga, não sei a que distância estou desse objecto nem mesmo de onde o observo. E não sei onde me encontro simplesmente por não estou lá representada. A minha natural "antropocentrometria" não se contempla. Trata-se da ausência do sujeito observador centrado a partir de si. Isto é, não se pode identificar neste tipo de representação um ponto de vista antropocêntrico. Ou ainda, não existe na axonometria a perspectiva fotográfica, tão divulgada pela renascença, de que todos os humanos têm hoje a consciência dependente. Sendo assim, neste sistema os objectos são como que representados por si próprios tal qual são e não por meio do meu ponto de vista perspéctico que os distorceria, tanto mais quanto mais próxima deles estivesse. E qualquer deslocação lateral que se imponha necessária também não modifica em nada a forma observada. No fundo isto é um meio de me abandonar no espaço sem que o meu lugar tenha determinação, estou em todo o lado ao mesmo tempo e por isso tenho uma experiência que é, embora devidamente limitada, de omnipresença. E o que isto significa não é mais que o facto de outros observadores da mesma situação partilharem rigorosamente o mesmo ponto de vista alargado.

2 <:

Xico disse...

Uma percepção "acêntrica" é uma percepção? Ou então: uma imagem «acêntrica» é ainda uma representação?

Sara disse...

Boa pergunta! E como boa pergunta que é precisa de uma resposta que não fique pela superfície. Se considerarmos a nossa época perceptiva em que para ter uma relação com a natureza temos de partir do ponto de vista do sujeito, como defendia Kant, não.

Mas sabes, a percepção evolui, como tudo no humano, no mundo e na natureza evolui. Nem sempre a percepção foi assim fotográfica como ela é desde que se começou a usar a descoberta de Aristóteles. A renascença usava a "camera obscura" para traçar a sua "perspectiva rigorosa", diria até mecanicista. Contudo, nem sempre o humano viu assim o que lhe chegava de fora. Ou parece-te que outras perspectivas anteriores às antropocêntricas não correspondiam à percepção dos seus observadores? Eram eles que não sabiam desenhar?

Não me parece que não soubessem desenhar, ou que em massa estivessem constringidos a uma tradição inviolável.

Cada cultura tem a sua própria representação estética e isso depende dos seus valores e conhecimentos. O interessante da representação perspéctica axonométrica, tão comum no budismo japonês, é isso mesmo. Uma abertura das nossas possibilidades, um sair de nós como centro do universo que sem este tipo de avanço dificilmente seria possível vislumbrar. Mas infelizmente olhamo-los como Levi Strauss denuciou da nossa visão dos povos primitivos, eles pareciam inferiores em capacidades cognitivas mas eram (e são para os que ainda existem) tão primitivos ou menos que nós.

Nos dias que correm, pessoas eruditas como tu já não se fundam no raciocínio aristotélico como o comum dos mortais que pensa. Mas hoje a comunidade académica ainda não consegue resistir a Kant para ver que há mais por onde conhecer. Tenho de admitir que o pensamento do senhor alemão, que nunca saiu de Konigsberg, terra natal, é de valor inestimável, mas não socumbo aos limites que nos impôs. Ele mesmo foi ultrapassando muitos dos seus limites à medida que ia redigindo as Críticas. Há que passar a Husserl. Sim, ele é difícil e complexo, mas também o era Kant na sua época muito mais do que é agora. A realidade é assim mesmo, dificil de agarrar, e não vamos partir do princípio que Husserl, ou posteriormente Heidegger, a tenham esgotado. A realidade é como o burro que persegue a cenoura, ninguém a esgotará.

A apresentação da-se na perantidade, no que está completamente à nossa frente e não disponível para entendimento racional ou qualquer tipo de manuseamento/ aplicação. É na representação, nova apresentação do que é suposto ser o mesmo (claro que não é), que se acede a isto e esse acesso depende de uma estrutura de linguagem que pode ser de outro modo. A coisa instrumentaliza-se. Não é necessário que o nosso ponto de vista inicial seja antropocêntrico, é até mesmo necessário que não seja. Por isso deixo esta posta como uma dádiva de instrumentos para a abertura, um "ponto de vista alargado". E de que está este ponto de vista alargado? Do antropocentrismo que a renascença foi repescar a alguns gregos.

Claro que o ocidente têm extrema dificuldade em perceber isto, tal como não lhe é acessível um ponto de vista não dualista. Mas ele existe independentemente do que as nossas instituições científicas pretendem instituir.

Diria que sim, que uma percepção, que é o dar-se de um entendimento que forma a representação a partir de uma apresentação, pode não depender obrigatoriamente de um ponto de vista centrado no próprio que observa enquanto é ocupante de um ponto único do universo. Como saberás a visão não te dá o ponto de vista que julgas ter, fotográfico ou antropocêntrico, ela vai juntandos pequeníssimos momentos de colecção que se vão dando à medida dos teus, também pequeníssimos, movimentos. A percepção nunca é estática como ela se dá a parecer, e o dinamismo que se lhe deve não é o que posteriormente podemos captar.

Essa realidade que vais construindo, pouco a pouco, acumulando frações de segundo, é posteriormente psicologisada para se enformar nesta ou naquela interpretação intencional. E isto é tão necessário para o viver-se do dia-a-dia que já nem damos por isso; tornou-se como que, digamos (se é que ele existe), inconsciente.

Diz-se que um criança recém nascida não vê formas, que só vê manchas, e há não muito tempo dizia-se que nem via, já que não era capaz de reconhecer. Mas os olhos da criança acabada de nascer vêm tanto como os teus, somente ainda não têm uma máquina de leitura para interpretar o que vê. E por isso há que diga que só vê manchas, que é o que os nossos olhos só vêm antes da informação se converter em electricidade e chegar ao senhor cérebro.

Sendo assim é extremamente difícl que um bom pensante, que não tenha ferramentas para isso, seja capaz de imaginar uma percepção ou representação acêntricas. Pois estes termos, tal como estão adquiridos pelo ponto de vista humanocêntrico da ciência, parecem não contemplar mais que o humano centrado em si próprio. Há aqui ainda uma herança de Descartes.

Quem pode saber o que pensa?

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