Que o amigo seja para vós a festa da terra

05 abril 2007

Shoah

Demoníaco


É bem conhecida a obstinação com que uma recorrente tendência herética defende a exigência da salvação final de Satanás. O plano abre-se sobre o mundo de Walser quando até o último demónio do Gehinnom foi levado para o céu, quando o processo da história da salvação se concluiu sem resíduos.
É espantoso que os dois escritores que, no nosso século, observaram com mais lucidez o horror incomparável que os circundava — Kafka e Walser — nos apresentem um mundo onde o mal na sua suprema manifestação tradicional — o demoníaco — desapareceu. Nem Klamm, nem o Conde, nem os escrivães ou os juízes kafkianos, e ainda menos as criaturas de Walser, poderiam jamais figurar num catálogo demonológico. Se algo semelhante a um elemento demoníaco sobrevive no mundo destes dois autores, é mais sob a forma que Espinosa tinha talvez em mente, quando escrevia que o demónio é apenas a criatura mais frágil e mais afastada de Deus, e, como tal — isto é, na medida em que é essencialmente potência —, não apenas não pode fazer nenhum mal, como, pelo contrário, é aquela que tem mais necessidade da nossa ajuda e das nossas orações. O demónio é, em cada ser, a possibilidade de não ser que, silenciosamente, implora o nosso socorro (ou, se quisermos, o demónio não é mais do que a impotência divina ou a potência de não ser em Deus). O mal é apenas a nossa inadequada reacção face a este elemento demoníaco, o medo com que recuamos perante ele para exercer — fundando-nos nesta fuga — um qualquer poder de ser. Só neste sentido secundário a impotência ou a potência de não ser é a raiz do mal. Fugindo perante a nossa própria impotência, ou procurando servirmo-nos dela como de uma arma, construímos o maligno poder com o qual oprimimos aqueles que nos mostram a sua fragilidade; e faltando à nossa íntima possibilidade de não ser, renunciamos ao que só torna o nosso amor possível. A criação — ou a existência — não é, de facto, a luta vitoriosa de uma potência de ser contra uma potência de não ser; é, antes, a impotência de Deus perante a sua própria impotência, o seu poder de não não-ser, de deixar ser uma contingência. Ou: o nascimento em Deus do amor.
Por isso, não é tanto a inocência natural das criaturas que Kafka e Walser fazem valer contra a omnipotência divina, mas mais a inocência da tentação. Em ambos o demónio não é um tentador, mas um ser infinitamente susceptível de ser tentado. Eichmann, um homem absolutamente banal, que foi empurrado para o mal precisamente pelos poderes do direito e da lei, é a terrível confirmação com que o nosso tempo se vingou do seu diagnóstico.

Giorgio Agamben, A Comunidade que Vem, trad. António Guerreiro, Lisboa, Presença, 1993.



Hoje tive a sofrida oportunidade de encontrar, no tHe ULtiMaTe diSoRDer, o arrepiante documento que o M.I.T. deixou sair da sua investigação acerca dos custos humanos na guerra do Iraque.


[Título reeditado a 6 de Abril de 2007. Ver comentários.]

2 <:

pedro paixão [outro] disse...

Neste breve excerto é possível compreender melhor a dinâmica que aqui está exposta:

"O demónio é, em cada ser, a possibilidade de não ser que, silenciosamente, implora o nosso socorro (ou, se quisermos, o demónio não é mais do que a impotência divina ou a potência de não ser em Deus). O mal é apenas a nossa inadequada reacção face a este elemento demoníaco, o medo com que recuamos perante ele para exercer — fundando-nos nesta fuga — um qualquer poder de ser."

E relativamente ao "mal" do titulo:

"No caso do termo Holocausto ... estabelecer uma relação mesmo se longínqua, entre Auschwitz e o 'olah' bíblico [traduzido na Vulgata como 'holocaustum'], e entre a morte nas câmaras a gás e a «dedicação total por motivos sagrados e superiores» não pode ser senão uma piada. Não só o termo supõe uma inaceitável equiparação entre fornos crematórios e altares, mas recolhe uma hereditariedade semântica que tem desde o inicio uma coloração anti-hebraica. Deste termo, portanto, nós não faremos mais uso. Quem dele se continua a servir, dá provas de ignorância ou de insensibilidade (ou de uma e da outra em conjunto)." [Giorgio Agamben, 'Quel che resta di Auschwitz' (Bollati Boringhieri, Torino, 1998), pág. 29.]

Sara disse...

Reconheço a minha ignorância no uso deste termo "holocauston", sob a forma "holocaustum" na Vulgata, para o 'olah' bíblico. Felizmente fui alertada a tempo para não deixar ficar esta grave relação.

O termo "holocauston", que usei para titular uma relação posta entre os campos de exterminação gasosa Alemã e exterminação do povo Iraquiano (ambos holocaustos no mau sentido do uso herético do termo), é e deve ser recuperado pelo sentido que tem antes da sua perversão. Como tal, reconhecendo mais uma vez este meu lapso cultural, mudei o título para o termo hebraico "shoah" e peço desculpa a qualquer leitor que se tenha sentido lesado.

Shoah, que significa uma violência catastrófica, é o termo que deve usar-se para designar o que habitualmente por "ignorância ou insensibilidade (ou uma e outra em conjunto)" se chama holocausto.

Holocauston significa o que vem completamente queimado, uma consumação completa, e o "olah" bíblico refere-se às oferendas divinas que se queimam. Eis que o termo "holocauston" não significa o mesmo que o termo "shoah" e esta confusão recorrente deve ser desfeita.

Sendo assim, o que se passou em Auschwits e se passa no Iraque, como aconteceu em tantos outros lugares durante esta nossa "humanidade?", é um shoah e não holocausto.

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