Que o amigo seja para vós a festa da terra
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20 março 2010

Totum



















Lisboa 2010
(Panorâmica lowfi com telemóvel de gama baixa)

Exposição de Ricardo Pacheco
18 de Abril da 20 de Maio
Galeria Prova de Artista


TOTUM
desenhos de Ricardo Pacheco

Ricardo Pacheco nasceu em 1974 e fez o seu percurso académico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Vive e trabalha em Lisboa, mas o seu trabalho não têm um lugar fixo nem surge de onde se possa indicar — pertence exclusivamente à pintura. Pintura do interior. Não do interior gasto e comum das novas tendências mas um interior completamente perene e genuíno.

O seu trabalho é honesto, inteiro e sincero. É de um desenhador hábil que desde muito cedo deixa cair o traço que empresta à sua imaginação, e nos mostra os outros que também somos. Sempre teve uma grande facilidade para a representação visual do mundo que o rodeia, mas é a imaginação profunda que começa cada vez mais a ter lugar nas suas obras: uma relação pura e desprotegida, perigosa e arriscada, com essa coisa que é o mundo do imaginar, da imagem que não tem forma, corpo ou matéria. E mergulha nela com a mesma intensidade como na água que o sacia. Mas a sua obra nada tem de abstracta, embora isso possa não ser claro à partida. É uma representação constante do outro que está fora e dentro dele mesmo, um mundo figurativo que existe mas que nem sempre temos a possibilidade de contemplar.

Na relação com o outro, e com o nosso próprio identificável, o que mais nos toca é o rosto. O rosto do amigo, o rosto da mãe, se ainda o temos connosco… o rosto da nossa casa, do nosso corpo, da terra que nos diz. O rosto ancestral do mundo, da ressonância histórica que dá forma e lança. Aquela fisionomia inefável do Tu e Eu. A relação pessoal que temos com certos lugares. A nossa natureza: quer ela seja urbana, rural, política ou tão simplesmente natural. A nossa própria natureza enquanto paisagem de um mundo que dificilmente chegamos a conhecer. Que forma têm as coisas? O que é o formal? Ricardo não procura o rosto meramente dito, ou tão facilmente reconhecível como face, mas um que lhe diga quem é e onde está com mais lealdade. É o rosto que está no espelho que fica por detrás dos olhos. Na verdade, o rosto é uma máscara que nos trava a atenção ao reconhecível, mas estamos tão habituados a fazer um reconhecimento simples e directo das fisionomias mais íntimas, por associação às faciais da superfície, que por ínfimos instantes de segundo julgamos compreender, e não nos é dada a oportunidade de saber isso em consciência. Aquilo que nos é mais familiar é o que de mais estranho nos é dado acesso.

De frente a uma tela branca temos tendência para procurar. «O que é que eu vejo, onde está o rosto?» E essa força que nos leva à procura é o que impede o encontro. Tão simples como encontrar exactamente o que procurávamos, e perder o que não sabíamos que lá estava. Será que sabemos quem somos? Pode argumentar-se que somos quem achamos que somos, e fique-se por aí para não complicar mais o que já é por demais complicado. Mas isso será o que achamos que somos, não aquilo que somos, e o que achamos nessa procura não é o que deixamos perdido quando a procura comanda o encontro...

O encontro é a metodologia deste artista que não procura, num processo criativo que se deixa encontrar a si e por si. O encontro de si mesmo vezes e vezes sem conta, coado pelas múltiplas relações com o mundo e com as pessoas. É na sua incansável abertura à vida e ao que nela advém, nos ritmos do corpo, nos passos dos animais e nos voos auspiciosos das aves, nas árvores e os seus ramos, nas trocas felizes ou difíceis, na fertilidade da constante partilha com quem gosta de cultivar. Nas tão longas conversas que tem com os seus amigos.

Estas pinturas e, sobretudo, estes desenhos do Ricardo Pacheco, dão-nos os percursos de toda esta topografia interna, dão-nos o que está lá dentro e a maturidade sacra do encontro. A consistência da obra do artista, obriga-nos a olhar toda ela para poder observar uma pequena série como esta. E o mesmo acontece no sentido inverso, tal é a sua unidade. Os desenhos que agora nos oferece e dão nome à sua presença nesta mostra, o título deste texto, podem tomar-se como um marco alcançado da sua própria representação.

Sara Constança
Lisboa, 12 de Março de 2010

06 outubro 2009

La liberté?



















La liberté guidant le peuple
Eugène Delacroix, 1830.
Óleo sobre tela, 260 x 325 cm.
Musée du Louvre, Paris.



Ou será antes o caso duma liberdade de extensão do USA PATRIOT Act (Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism Act) sob a forma de UE FP7 INDECT Project (Intelligent information system supporting observation, searching and detection for security of citizens in urban environment)? Será que a tendência chegou mesmo à Europa, de vez e para ficar? Será que o nosso 'antigo regime' se renova, agora, por todo o mundo europeu, com a desculpa esfarrapada do terrorismo ou prevenção de conflito (Minority Report)? Acabaram-se de vez as nossas liberdades individuais e já não temos direito à privacidade? Alguma vez tivemos...? Mas agora parece que não temos mesmo...

Fala-se de comportamentos anormais e nós perguntamos... o que é um comportamento anormal?

Esta posta não traz nada de novo pois o assunto está apresentado numa notícia do Público de hoje e a sua polémica foi devidamente notada. Mas, como o texto vai ser arquivado e deixará de estar disponível, o Skápsis resolveu fixar o assunto.



Críticos dizem tratar-se de uma medida "orwelliana"
Internet: projecto europeu vai tentar detectar condutas "anormais"

Um programa de cinco anos financiado pela União Europeia chamado Projecto Indect tem como objectivo desenvolver programas de computador que actuem como agentes de polícia, monitorizando e processando informações de sites, fóruns de discussão, servidores, redes sociais e mesmo computadores individuais. O objectivo é detectar condutas “anormais” ou indícios de violência. Os detractores do projecto já vieram dizer que se trata de uma medida “orwelliana” e um “passo sinistro”.

Foram atribuídos ao projecto 10 milhões de libras (10,9 milhões de euros) e a sua coordenação está a cargo da Universidade AGH de Ciência e Tecnologia, na Polónia. A par com este país, estão igualmente envolvidos a Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Bulgária, República Checa, Eslováquia e Áustria, bem como o serviço policial da Irlanda do Norte, de acordo com o “Telegraph”.

Segundo a página oficial do Projecto Indect, que começou este ano, os grandes objectivos desta acção incluem “o desenvolvimento de uma plataforma de registo e troca de dados operacionais, a aquisição de conteúdo multimédia, o processamento inteligente de todas as informações, a detecção automática de ameaças e o reconhecimento de comportamentos anormais ou violência”.

A página fala ainda da criação de “agentes com a missão de monitorizar continuadamente e automaticamente recursos públicos como sites de Internet, fóruns de discussão, redes sociais, servidores, redes P2P (peer-to-peer), bem como sistemas informáticos individuais, construindo um sistema inteligente, simultaneamente activo e passivo, de recolha de dados com base na Internet”.

Este projecto Indect acontece numa altura em que a União Europeia está a expandir o seu papel de combate ao crime e ao terrorismo, controlando apertadamente os fluxos de migração para dentro das fronteiras europeias. Nos últimos tempos, o orçamento europeu destinado a estas áreas cresceu 13,5 por cento, fixando-se actualmente nos 900 milhões de libras (981 milhões de euros), indica o “Telegraph”.

A Comissão Europeia tem vindo a pedir uma “cultura comum” de reforço das leis de segurança em toda a União Europeia, querendo que cerca de um terço das suas forças policiais recebam formação em assuntos europeus durante os próximos cinco anos.


Medida “arrepiante”

Shami Chakrabarti, director do grupo Liberty de protecção dos direitos humanos, declarou ao “Telegraph” que a introdução de técnicas de vigilância com este alcance é um “passo sinistro” para qualquer país, sendo ainda mais “arrepiante”, se pensarmos que ele tem uma dimensão europeia.

“Analisar populações inteiras em vez de monitorizar suspeitos individuais é um passo sinistro em qualquer sociedade. Se já é suficientemente perigoso a um nível nacional, à escala europeia torna-se verdadeiramente arrepiante”, indicou Chakrabarti.

Por seu lado, Stephen Booth, analista da organização Open Europe (um think-tank com base em Londres e assumidamente eurocéptico), indicou igualmente ao “Telegraph” que a introdução na agenda europeia deste projecto tem ressonâncias “orwellianas” e coloca sérias questões sobre as liberdades individuais, lamentando que os impostos dos cidadãos europeus tenham como destino missões deste tipo.

“Isto é assustador. Estes projectos significam uma enorme invasão de privacidade e os cidadãos precisam de se perguntar se a UE deveria gastar os seus impostos neste tipo de coisas”, disse. “Já alguém se questionou se isto serve mesmo os interesses dos cidadãos?”, acrescentou.

Citado pelo “El País”, David Larrabeiti López - da Universidade madrilena Carlos III, que também participa neste projecto europeu - rejeita qualquer interpretação “orwelliana” desta iniciativa. De acordo com as suas explicações ao diário espanhol, o Indect reúne um conjunto de “ferramentas de interesse em termos de segurança dos cidadãos”, que incluem, entre outras coisas, a análise automática de imagens de vídeo e o rastreio de dados públicos disponíveis na Internet para o seu respectivo reconhecimento com “técnicas de interpretação de linguagem natural”, escreve o “El País”.

David Larrabeiti López opina ainda que as próprias polícias nacionais e os serviços secretos já dispõem de instrumentos de vigilância muito mais potentes e agressivos quando querem localizar suspeitos concretos. “O projecto não pode aceder, por exemplo, a bases de dados policiais nem cruzar endereços de IP com utilizadores”, esclareceu o mesmo responsável. “O uso de dados pessoais está expressamente excluído do projecto e não há nenhuma intromissão na privacidade”, concluiu.

Detectar e imobilizar uma agulha no palheiro

Este Projecto Indect parece aproximar-se de um outro, da própria União Europeia, chamado Projecto Adabts (Automatic Detection of Abnormal Behaviour and Threats in crowded Spaces), coordenado a partir da Suécia e que também procura detectar comportamentos “anormais” em espaços onde se agrupem multidões e que recebeu cerca de três milhões de libras (3,2 milhões de euros) de financiamento.

O coordenador do projecto, Jorgen Ahlberg, da agência sueca de pesquisa defensiva, explicou que este sistema irá analisar uma série de características individuais (incluindo o tom de voz e a linguagem corporal) de determinadas pessoas numa multidão. “Normalmente as pessoas não começam uma luta de um momento para o outro. Começam por gritar umas com as outras, por darem empurrões... Este sistema não vai servir para que as pessoas sejam detidas imediatamente, vai apenas servir para alertar um operador que alguma coisa está a acontecer. Por exemplo, num centro comercial, se for enviado um segurança atempadamente, pode nem sequer chegar a haver desacatos”, explicou Ahlberg, citado pelo Telegraph.

De acordo com o think-tank Open Source, os dados recolhidos pelo Projecto Indect e por sistemas semelhantes poderão ser usados por um organismo europeu pouco conhecido, o SitCen (Joint Situation Centre), que poderá ser o embrião dos serviços secretos europeus. Alguns críticos comentam inclusivamente que se poderá tornar na CIA europeia. Desde 2005 que o SitCen tem servido para recolher e partilhar informação de contra-terrorismo.


Comentários

Comentário 06.10.2009 - 19h59 - Anónimo, mundo
1984... melhor que tentar explicar em 5 linhas o porque de desprezar estas medidas, é deixar os links para dois videos MUITO explicativos dos porques de estas medidas serem orwellianas e absolutistas: fuzilah . posterous . com/open-your-eyes . fuzilah . posterous . com/ask-questions

Comentário 06.10.2009 - 16h14 - Zé Pagode, Lisboa
Cara Amélia, considero então que acha aceitável que sejamos todos vigiados e espiolhados porque aqueles que só têm comportamentos aceitáveis não têm nada a temer. E que comportamentos é que são "aceitáveis"? E se o Big Brother decidir que o partido da Amélia não é "aceitável"? E se usar informação privada sua para lhe vedar acesso a um emprego, porque a Amélia disse mal não sei de quem num email para uma amiga? Pois é, numa sociedade da vigilância ninguém está seguro, ninguém é livre. Comparar isso com um carro-patrulha na estrada é de uma parvoíce imensa.

Comentário 06.10.2009 - 15h09 - Anónimo, lisboa
Pois é... A internet (o Zion dos tempos modernos) o ultimo bastião da liberdade e de troca de informação está sobre grande ataque, e aqueles que se dizem "justos", "correctos" ou que "não fazem nada de censurável" só são assim porque ainda não ilegalizaram nada que façam e que acham normal. Agora quando acabarem com a internet em prol dos grandes interesses financeiros, veremos que o cidadão, os artistas e a própria evolução tecnológica é que serão os mais perderão. Já muitos avisam, mas há sempre as ovelhas que seguem a autoridade sem porem em causa a legitimidade das próprias regras.

Comentário 06.10.2009 - 14h26 - Amélia Costa, Lisboa
Pois eu acho muito bem...não tenho medo destas acções de segurança, do mesmo modo que não travo quando vejo um carro da polícia. Porquê? Porque cumpro os limites de velocidade e porque utilizo a net para actividades que nada têm de censurável...

Comentário 06.10.2009 - 13h53 - Anónimo, Lisboa
quando irão estes burocratas perceber que não há comportamento "normal" humano? a estupidez hoje em dia é viral como a gripe.

Comentário 06.10.2009 - 13h49 - Templário, Eurábia
Pelo menos, ainda bem que avisam. A medida, expressa nestes termos, sempre é dissuasora. Agora não me acredito que esta informação seja destinada à mão de santinhos. Quem puser a mão nesta informação vai dar-lhe todas as utilizações possíveis que o dinheiro permitir. Tudo tem um preço, tudo se compra. E no que toca à política, instituições de poder e grandes empresas... mais não digo. Acredito nos hackers, os quais encarregar-se-ao de tratar da saúde a estes meninos Orwellianos.

Comentário 06.10.2009 - 13h48 - Anónimo, Lisboa
um absurdo ... para legitimizar estas e outras medidas absolutistas é que o tratado de lisboa foi forçado ...

Comentário 06.10.2009 - 13h30 - Filipe, Lisboa
Acho inacreditável que com tanta obra literária ou cinematográfica à volta deste tema, ainda haja alguém com estas ideias de controlar e que pense que isto não é nada invasivo. Então se não é invasivo porque é que o querem fazer? Metam-se na vossa vida e preocupem-se convosco. É por este motivo que os estudantes universitários têm mesmo de poder enfrascar-se à vontade, senão ficam como estes totós, que querem viver a vida dos outros, porque não têm vida própria. Cerveja e Liberdade!

12 junho 2008

Tataki




















Estate
Giuseppe Arcimboldo, 1573.
Óleo sobre tela, 61 x 50,8 cm.
Musée du Louvre, Paris.


Noite de Verão —
uma pancada no portão,
uma pancada na porta...
Como a esperança responde
ao bater no parapeito.

Isumi Shikibu
Luísa Freire (org./trad.), O Japão no Fiminino — Tanka, séculos IX a XI, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.

21 março 2008

Cornucópia
















Alimentação de Jupiter Criança
Nicolas Poussin, 1640.
Óleo sobre tela, 117,4 x 155,3 cm.
National Gallery of Art, Washington DC.

13 janeiro 2008

Em cada uma dessas vidas
















Ariadne, Venus e Bacchus
Tintoretto, 1576.
Óleo sobre tela, 146 x 157 cm.
Palazzo Ducale, Veneza.


Ao contrário das personagens dos romances, vinculadas a um único gesto, as figuras dos mitos passam por muitas vidas e muitas mortes. Mas em cada uma dessas vidas e dessas mortes estão compreendidas, e repercutem-se, todas as outras. Só quando nos apercebemos da existência de uma coerência inesperada entre incompatíveis é que podemos dizer que transpomos o limiar do mito.


Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Lisboa, Cotovia, 1990.

01 janeiro 2008

Vou vê-las est'ano




















Dom-Fafe e Cerejeira-do-Japão
Katsushika Hokusai, 1834.
Da série Flores Pequenas.
Xilogravura a cores, 25,1 x 18,2 cm.
Honolulu Academy of Arts, Honolulu.


Embora despontem
já as flores de cerejeira,
vou vê-las este ano
com perfume de ameixeira
enchendo o meu coração.



Isumi Shikibu
Tanka, org e trad. Luísa Freire, Lisboa, Assíro & Alvim, 2007.

05 dezembro 2007

No interstício ou na disjunção
























Primitive Blaze
Bridget Riley, 1963-64.
Emulsão sobre placa, 94,5 x 94,5.
Sotheby's, Londres.


(…) — “que significa pensar? A que se chama pensar?” — (…)

(…) Pensar é experimentar, é problematizar. O saber, o poder e o si são a tripla raiz de uma problematização do pensamento. E, para começar, naquilo que decorre do saber enquanto problema, pensar é ver e é falar, mas pensar faz-se no entre-dois, no interstício ou na disjunção do ver e do falar. É, de cada vez, inventar o entrelaçamento, desfechar uma flecha de um contra o alvo do outro, fazer refulgir um relâmpago de luz nas palavras, e fazer ouvir um grito nas coisas visíveis. Pensar é fazer com que o ver alcance o seu limite próprio, e o falar o seu, de tal sorte que os dois sejam o limite comum que os relaciona um com o outro, separando-os.
Em seguida, em função do poder enquanto problema, pensar é emitir singularidades, é lançar os dados. Aquilo que o lance de dados exprime, é que pensar provém sempre do de-fora (desse de-fora que já se precipitava no interstício ou constituía o limite comum). Pensar não é nem inato nem adquirido. Não é o exercício inato de uma faculdade, mas não é também um learning que se constitui no mundo exterior. (…) a genitalidade do pensamento enquanto tal, um pensamento que vem de um de-fora mais longínquo que todo e qualquer mundo exterior, e portanto mais próximo que todo e qualquer mundo interior. Será necessário chamar Acaso a esse de-fora? (...)


Giles Deleuze, Foucault, Lisboa, Vega, 1998.

07 novembro 2007

É um modo intensivo
























Shirin
Bridget Reiley, 1984.
Óleo sobre tela, 171,5 x 140,8 cm.
Galeria Nicole Schlégl, 2007.


(...) Um processo de subjectivação, isto é, uma produção de modos de existência, não se pode confundir com um sujeito, a menos que este seja destituído de toda a interioridade, de toda a identidade. A subjectivação nem sequer tem a ver com a «pessoa»: é uma individuação, particular ou colectiva, que caracteriza um acontecimento (uma hora do dia, um rio, uma aragem, uma vida...). É um modo intensivo e não um sujeito pessoal. É uma dimensão específica sem a qual não se poderia ir além do saber nem resistir ao poder. (...)

A Vida Como Obra de Arte
Gilles Deleuze, O Mistério de Ariana, Lisboa, Vega, 1996.

24 agosto 2007

Esta viagem
















A Morte de Sócrates
Jacques-Louis David, 1787.
Óleo sobre tela, 129,5 x 196,2 cm.
The Metropolitan Museum of Art, Nova York.


(...) Já com o banho tomado, sentou-se junto de nós e pouco mais conversou. O servidor dos Onze veio entretanto e, chegando-se ao pé dele, eis que diz:

— Ao menos, Sócrates, não terei de censurar em ti o que censuro noutros, que se insurgem e me amaldiçoam quando, por imposição dos arcontes, lhes venho comunicar a ordem de beber o veneno… A ti, conheci-te bem durante este tempo: foste o homem mais generoso, mais aprazível e excelente de quantos por aqui passaram! Estou certo de que também agora não te insurgirás contra mim mas contra os verdadeiros culpados, que conheces bem! Agora… sabes o que vim anunciar-te. Adeus, e trata de aceitar da melhor forma a sorte inevitável.
E, chorando, voltou costas e afastou-se. Sócrates ficou ainda a olhá-lo:

— A ti também, adeus! Por minha parte farei como dizes — respondeu. E, voltando-se para nós, comentou: — Que amável, este homem! Durante todo este tempo não deixava de aqui vir, aqui ficava por vezes a conversar comigo. Excelente criatura e que generosas as suas lágrimas! Mas vamos, Críton, tratemos de obedecer-lhe; que me tragam o veneno, se já estiver preparado; se não, que o preparem.
E diz Críton: — Mas, salvo o erro, Sócrates, o Sol ainda está nas montanhas e não se pôs por enquanto! De resto, sei de outros que só o tomaram mesmo muito mais tarde e que, depois de a ordem lhes ser dada, ainda comeram e beberam a seu bel-prazer, alguns mesmo na companhia daqueles que mais desejavam. Vamos, não te apresses, que ainda há tempo.
Replicou-lhe ele: — É natural, Críton, que esses a quem te referes assim procedam: é que estão convencidos de que lucram com isso. Mas, por mim, é também natural que não proceda como eles, pois, estou convicto, nada lucraria em beber o veneno um pouco mais tarde, a não ser tornar-me ridículo aos meus próprios olhos, com esse apego a uma vida que já deu o que tinha a dar… Portanto — concluiu —, trata de obedecer-me e não procedas de outro modo.
Ouvindo isto, Críton fez sinal ao escravo que estava de pé. Este saiu e, decorrido ainda bastante tempo, voltou com o homem encarregado de lhe ministrar o veneno, que já vinha moído na taça. Ao vê-lo, Sócrates interpelou-o:

— Muito bem, meu caro: tu, que percebes destas coisas, diz lá: que é necessário fazer?

— Apenas — explicou — passear um pouco depois de beberes o veneno; quando sentires as pernas pesadas, deitas-te então, e o veneno actuará por si.
Ao mesmo tempo estendeu a taça a Sócrates. E com perfeito à-vontade, Equécrates, sem que a mão lhe vacilasse ou se alterasse a cor de rosto, pegou nela e, fixando no homem o seu habitual «olhar de touro», inquiriu:
— Que dizes, se me servir desta bebida para uma libação? É ou não lícito?
— Por nossa parte, Sócrates — respondeu —, preparamos a dose que achamos conveniente.
— Entendo — disse. — Mas, pelo menos, ser-me-á permitido, se é que não devo mesmo, dirigir uma prece aos deuses para que me tornem propícia esta viagem para o Além… Essa é pois a minha prece e oxalá assim seja!
E dizendo isto, segurando a taça com a mesma naturalidade e serenidade de espírito, despejou-a de um só trago. Nós, que de há algum tempo a essa parte ainda conseguíamos, mais ou menos, reter o pranto, quando o vimos beber até ao fim, não pudemos mais: a mim, pelo menos, as lágrimas corriam-me perdidamente, a ponto de esconder o rosto para chorar à vontade — não por ele, decerto, mas pela desgraça de ficar, eu, privado de um companheiro como este! Críton, ainda primeiro do que eu, incapaz de conter as lágrimas, levantou-se e saiu. Quanto a Apolodoro, que já antes não deixara de chorar, esse soltava rugidos tais, por entre lágrimas e lamentações, que, ao ouvi-lo, não havia ninguém a quem não se partisse o coração — exceptuando, naturalmente, o próprio Sócrates, que exclamou:

— Mas que é isto, meus caros?... Que estão a fazer? Eu, se mandei sair as mulheres, não foi por outro motivo — para que não perturbassem… Sempre ouvi dizer que se deve morrer em serenidade. Sosseguem e dominem-se!
Ouvindo isto, envergonhámo-nos e retivemos o pranto. Ele então deu uns passos em volta, até que disse sentir as pernas pesadas e se deitou de costas — tal como o homem prescrevera. Entretanto, o que lhe ministrara o veneno, palpando-lhe o corpo, observava-lhe de tempos a tempos os pés e as pernas. Em seguida, carregando com força num pé, perguntou-lhe se ainda sentia, ao que ele respondeu que não. Recomeçou depois pela parte inferior das pernas; e, assim subindo, nos fez ver que se tornava frio e hirto. Sem deixar de o palpar, observou-nos que, quando lhe atingisse o coração, seria o fim… E já praticamente toda a região do ventre estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto — pois tinha-o, com efeito, coberto —, disse estas palavras, as últimas que proferiu:

— Críton, devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam!
(...)


Platão, Fédon, trad. Mª Teresa Schiappa de Azevedo, Coimbra, Minerva, 1998.

18 agosto 2007

Nemesis?
























O Universo
Hildegard von Bingen, 1151.
Iluminura em manuscrito.
Liber
Scivias, Rupertsberg Codex.

(…) Then I saw a huge object, round and shadowy. Like an egg it was pointed on top...Its surrounding layer was bright fire. Beneath this lay a dark skin. In the bright fire hovered a reddish, sparkling fireball. (…)

Hildegard von Bingen, Liber Scivias, Rupertsberg Codex .
England, Dark Star Symbolism, 2006.

(…) Então vi um objecto enorme, redondo e ensombreado. Ponteagudo no topo como um ovo… Envolto numa camada de fogo brilhante. Em baixo desta camada estava uma pele escura. No fogo brilhante pairava uma avermelhada bola de fogo faiscante. (…)

11 agosto 2007

Inteiramente um eco




















Vila Viçosa 2005

(...) Parece-nos em geral, a nós que manejamos a língua de forma empírica, que toda a literatura antiga é algo de artificial e de retórico, incluindo a literatura romana. Isso explica-se em última instância pelo facto de que a prosa própria da antiguidade é inteiramente um eco do discurso oral e formou-se segundo as suas leis, enquanto que a nossa prosa se explica cada vez mais através da escrita, a nossa estilística dá-se a ver apenas através da leitura. Mas o leitor e o auditor pedem cada um uma forma de exposição (Darstellung) absolutamente diferente e por essa razão a literatura da antiguidade soa-nos como «retórica»: quer dizer que se dirige antes de mais ao ouvido para o seduzir. Extraordinário desenvolvimento do sentido rítmico entre os Gregos e os Romanos, para quem escutar a palavra é ocasião de um formidável e continuado exercício. Ocorre aqui algo de semelhante à poesia — conhecemos os poetas «literários», os Gregos conheciam uma poesia autêntica sem a mediação do livro. Nós somos muito mais descoloridos e abstractos. (...)

Nietzsche, Da Retórica, Lisboa, Vega, 1995.

19 julho 2007

O que segura o lótus
























Avalokiteshvara
Tibete, Nepal ou Butão.
Tangka, pigmento sobre seda (kesi).

(…)

DL — (…) Os chefes religiosos, aqui e ali, proclamam alto e bom som que ocupam este terreno espiritual, que é seu apanágio. No seu entender, se alguém rejeita a religião, rejeita ao mesmo tempo toda a experiência espiritual.

JCC — O que é perfeitamente abusivo. Porque estaria a vida espiritual necessariamente ligada a qualquer crença sobrenatural? Poderíamos quase dizer o contrário, que a fé é o abandono do espírito.

DL — Realmente poder-se-ia dizer isso. Mas não procuro desviar ninguém da sua fé, se ela for praticada com tolerância. Veja-se, entretanto, aonde pode conduzir a confusão entre o religioso e o espiritual: imaginemos um homem que fala da noção de benevolência ou de perdão, ou ainda de compaixão, esta atitude, bem o sabe, é um dos fundamentos do budismo. Um outro homem, que não tem qualquer preocupação de ordem religiosa, escuta o primeiro e diz encolhendo os ombros: isso não passa de religião, não estou interessado.

JCC — Faz mal, naturalmente.

DL — É evidente! Caiu numa armadilha grosseira de vocabulário! As palavras «compaixão» ou «caridade» cegaram-no. Ora, trata-se de qualidades humanas, puramente humanas. Não tivemos necessidade de uma revelação divina para as adquirir ou descobrir. (…)

(…)

JCC — O Ocidente interrogou-se longamente sobre esta pretensa liberdade. Não somos comandados pelo meio em que nascemos, pelas crenças que nos envolvem, pela nossa infância, por todos os elementos mais ou menos claros que nos compõem?

DL — É evidente. Daí a dificuldade dessa tarefa. Mas posso dizer que num certo nível de reflexão, o homem teve sempre a escolha. Ele pode adquirir esta liberdade, libertar-se de tudo o que o bloqueia. E deve fazê-lo. Disse um dia que tanto quanto me parece, Deus se deixou dormir algures. Como deve perceber, estava a brincar, pois não levamos em conta a existência de um Deus criador. Mas se é verdade que Deus adormeceu, cabe-nos a nós acordá-lo.

(…)

JCC — Pode também sobreviver-se sem religião?

DL — Naturalmente. (…) Tudo parte de nós. De cada um de nós. As qualidades indispensáveis são a paz de espírito e a compaixão. Sem elas, nem vale a pena tentar. Essas qualidades não só são indispensáveis, como também inevitáveis. Como já lhe disse, encontramo-las em nós se nos dermos ao trabalho de as procurar. Podemos rejeitar toda a forma de religião, mas não podemos rejeitar fora de nós a compaixão e a paz de espírito.

(…)


Dalai Lama & Jean-Claude Carrière, A Força do Budismo, Lisboa, Difusão Cultural, 1995.

O vento que te empurra
























Árvores de Outono
Egon Schiele, 1911.
Óleo sobre tela, 79,5 x 80 cm.
Colecção particular.



Mit wechselndem Schlüssel
schließt du das Haus auf, darin
der Schnee des Verschwiegenen treibt.
Je nach dem Blut, das dir quillt
aus Aug oder Mund oder Ohr,
wechselt dein Schlüssel.

Wechselt dein Schlüssel, wechselt das Wort,
das treiben darf mit den Flocken.
Je nach dem Wind, der dich fortstößt,
ballt um das Wort sich der Schnee.

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.

Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006.

18 julho 2007

Agenciamento
























Current
Bridget Riley, 1964.
Acrílico em quadro, 58 x 58 cm.
Museum of Modern Art, Nova York.


Só se sai efectivamente dos dualismos deslocando-os como se de um fardo se tratasse, e quando se encontra entre os termos, quer sejam dois ou mais, um desfiladeiro estreito como uma passagem ou uma fronteira que vai fazer do conjunto uma multiplicidade, independentemente do número de partes. Aquilo a que chamamos um agenciamento é precisamente uma multiplicidade.


Giles Deleuze e Claire Parnet, Diálogos, Lisboa, Relógio D'Água, 2000.

17 julho 2007

Uma encruzilhada

















Pearblossom Highway
David Hockney, 1986.
Impressões cromogénicas montadas
em painel favo de mel, 198 x 282 cm.
Getty Museum, Malibu.


Uma encruzilhada,
à frente.

Mil corredores com
mil portas cada.
E em cada porta,
mil quartos e
mil armários com
mil gavetas.

Dentro de cada gaveta há:
mil mundos diversos
por sorver.


1996

09 julho 2007

Ströme

























Herzzeit, es stehn
die Geträumten für
die Mitternachtsziffer.

Einiges sprach in die Stille, einiges schwieg,
einiges ging seiner Wege.
Verbannt und Verloren
waren daheim.

Ihr Dome.

Ihr Domo ungesehn,
ihr Ströme unbelauscht,
ihr Uhren tief in uns.

Tempo do coração, erguem-se
os que sonhámos em vez
dos mostradores da meia-noite.

Havia quem falasse, quem se calasse,
quem seguisse o seu caminho.
Banidos e perdidos
estavam em casa.

Vós, catedrais!

Vós, catedrais não vistas,
vós, rios não escutados,
vós, relógios no fundo de nós.

Colónia, Am Hof
Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. João Barrento, Lisboa, Cotovia, 2006.


Postal de Saraswati do National Card Centre Simplex BLDG

Até ao mais profundo




















(...)
Nunca me conformei com um conceito puramente científico da existência, ou aritemético-geométrico, quantitativo-extensivo. A existência não cabe numa balança ou entre os ponteiros dum compasso. Pesar e medir é muito pouco; e esse pouco é ainda uma ilusão. O pesado é feito de imponderáveis, e a extensão de pontos inextensos, como a vida é feita de mortes. A realidade não está nas aparências transitórias, reflexos palpitantes, simulacros luminosos, um aflorar de quimeras materiais. Nem é sólida, nem líquida, nem gasosa, nem electromagnética, palavras com o mesmo significado nulo. Foge a todos os cálculos e a todos os olhos de vidro, por mais longe que eles vejam, ou se trate dum núcleo atómico perdido no infinitamente pequeno, ou da nebulosa Andrómeda, a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!
A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão. Esta apenas descobre um simples jogo de forças repetido ou modificado lentamente, gestos insubstanciais, formas ocas, a casca de um fruto proibido.
Mas o miolo é do poeta. Só ele saboreia a vida até ao mais íntimo do seu gosto amargoso, e se embrenha nela até ao mais profundo das suas sensações e sentimentos. É o ser interior a tudo. (...)

Teixeira de Pascoaes, Homem Universal, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993.



Pintura digital para a NASA por Adolf Schaller

29 junho 2007

Acontecimentos do espírito
























Estudo depois do Retrato do
Papa Inocêncio X de Velasquez
Francis bacon, 1953.
Óleo sobre tela, 153 x 118,1 cm.
Des Moins Art Center, Iowa.


(...) É enquanto espírito incarnado, enquanto ligado a um corpo, que o espírito obtém a personalidade: separado do corpo, na morte, o espírito volta a encontrar o seu equívoco e múltiplo poder. E é ao ser reconduzido ao seu corpo que o espírito obtém a imortalidade; a ressurreição dos corpos é condição de sobrevivência do espírito: liberto do seu corpo, ao recusar o cor-po, ao revogar o seu corpo, o espírito deixaria de existir, mas «subsistiria» com o seu inquietante poder. A morte e a duplicidade, a morte e a multiplicidade, são assim as verdadeiras determinações espirituais, os verdadeiros acontecimentos do espírito. Compreendemos que Deus é o inimigo dos espíritos, que a ordem de Deus vai contra a ordem dos espíritos: para instaurar a imortalidade e a personalidade, para a impor à força aos espíritos, Deus deve apostar nos corpos. Ele vai submeter os espíritos à função privativa da pessoa, à função privativa da ressurreição. (...)

Kolossowski ou o corpo-linguagem
Gilles Deleuze, O Mistério de Ariana, Lisboa, Vega, 1996.

09 junho 2007

Epiphaneia
























Amarelo e Azul
(Amarelo e Azul em laranja)

Mark Rothko, 1955.
Óleo sobre tela, 259,4 x 169,6 cm.
Carnegie Museum of Art, Pitsburgo.

(...) O poder visionário parece não ter sido distribuido igualmente entre os homens; era mais abundante nos tempos antigos e têm-se firmemente tornado mais raro. (...)

Tradução nossa do Inglês
Carl Kerényi, Dionysos, Trad. Ralph Manheim, New Jersey, Bollingen, 1996.

05 junho 2007

Diz o nome do que te enche os olhos
























A Erva Grande
Albrecht Dürer, 1503.
Aguarela e guache sobre papel, 41 x 32 cm.
Graphisch Salmmlung Albertina, Viena.

(…)
O trinke Morgenlüfte,
Bis daß du offen bist,
Und nenne, was vor Augen dir ist,
Nicht länger darf Geheimnis mehr
Das Ungesprochene bleiben,
Nachdem es lange verhüllt ist;
Denn Streblichen geziemet die Scham,
Und so zu reden die meiste Zeit,
Ist weise auch von Göttern.
Wo aber überflüssiger, denn lautere Quellen
Das Gold und ernst geworden ist der Zorn an dem Himmel,
Muß zwischen Tag und Nacht
Einsmals ein Wahres ercheinen.
Dreifach umscheibe du es,
Doch ungesprochen auch, wie es da ist,
Unschulgige, muß es bleiben.
(…)


(…)
Oh, bebe da manhã as brisas,
Até ficares aberta,
E diz o nome do que te enche os olhos,
Por mais tempo não pode, o que não foi dito,
Ficar envolto em mistério,
Depois de tanto tempo de silêncio;
Pois o pudor é próprio dos mortais,
E falar assim, quase o tempo todo,
Também é sabedoria dos deuses.
Mas quando o ouro fluir, mais abundante
Do que as fontes puras e no Céu a ira se tornar mais severa,
É forçoso que, entre o dia e a noite,
Por fim venha a aparecer algo de verdadeiro.
Transcreve-o triplamente,
Deve porém manter-se inefável,
Inocente como é.
(…)


Germânia
Friedrich Hölderlin, Hinos Tardios, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000.

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