03 fevereiro 2011
23 janeiro 2011
Olho de pássaro
Aproximação e aterragem na pista 03 de Lisboa, Portugal (LPPT).
Pelo Cmdt. António Escarduça, acompanhado pelo And Then I Knew de Pat Metheney.
Aproximação e aterragem na pista 21 de Lisboa, Portugal (LPPT).
Pelo Cmdt. António Escarduça, acompanhado pela Vtlava do Ma Vlast de Smetana.
02 setembro 2010
20 março 2010
Totum
Lisboa 2010
(Panorâmica lowfi com telemóvel de gama baixa)
Exposição de Ricardo Pacheco
18 de Abril da 20 de Maio
Galeria Prova de Artista
TOTUM
desenhos de Ricardo Pacheco
Ricardo Pacheco nasceu em 1974 e fez o seu percurso académico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Vive e trabalha em Lisboa, mas o seu trabalho não têm um lugar fixo nem surge de onde se possa indicar — pertence exclusivamente à pintura. Pintura do interior. Não do interior gasto e comum das novas tendências mas um interior completamente perene e genuíno.
O seu trabalho é honesto, inteiro e sincero. É de um desenhador hábil que desde muito cedo deixa cair o traço que empresta à sua imaginação, e nos mostra os outros que também somos. Sempre teve uma grande facilidade para a representação visual do mundo que o rodeia, mas é a imaginação profunda que começa cada vez mais a ter lugar nas suas obras: uma relação pura e desprotegida, perigosa e arriscada, com essa coisa que é o mundo do imaginar, da imagem que não tem forma, corpo ou matéria. E mergulha nela com a mesma intensidade como na água que o sacia. Mas a sua obra nada tem de abstracta, embora isso possa não ser claro à partida. É uma representação constante do outro que está fora e dentro dele mesmo, um mundo figurativo que existe mas que nem sempre temos a possibilidade de contemplar.
Na relação com o outro, e com o nosso próprio identificável, o que mais nos toca é o rosto. O rosto do amigo, o rosto da mãe, se ainda o temos connosco… o rosto da nossa casa, do nosso corpo, da terra que nos diz. O rosto ancestral do mundo, da ressonância histórica que dá forma e lança. Aquela fisionomia inefável do Tu e Eu. A relação pessoal que temos com certos lugares. A nossa natureza: quer ela seja urbana, rural, política ou tão simplesmente natural. A nossa própria natureza enquanto paisagem de um mundo que dificilmente chegamos a conhecer. Que forma têm as coisas? O que é o formal? Ricardo não procura o rosto meramente dito, ou tão facilmente reconhecível como face, mas um que lhe diga quem é e onde está com mais lealdade. É o rosto que está no espelho que fica por detrás dos olhos. Na verdade, o rosto é uma máscara que nos trava a atenção ao reconhecível, mas estamos tão habituados a fazer um reconhecimento simples e directo das fisionomias mais íntimas, por associação às faciais da superfície, que por ínfimos instantes de segundo julgamos compreender, e não nos é dada a oportunidade de saber isso em consciência. Aquilo que nos é mais familiar é o que de mais estranho nos é dado acesso.
De frente a uma tela branca temos tendência para procurar. «O que é que eu vejo, onde está o rosto?» E essa força que nos leva à procura é o que impede o encontro. Tão simples como encontrar exactamente o que procurávamos, e perder o que não sabíamos que lá estava. Será que sabemos quem somos? Pode argumentar-se que somos quem achamos que somos, e fique-se por aí para não complicar mais o que já é por demais complicado. Mas isso será o que achamos que somos, não aquilo que somos, e o que achamos nessa procura não é o que deixamos perdido quando a procura comanda o encontro...
O encontro é a metodologia deste artista que não procura, num processo criativo que se deixa encontrar a si e por si. O encontro de si mesmo vezes e vezes sem conta, coado pelas múltiplas relações com o mundo e com as pessoas. É na sua incansável abertura à vida e ao que nela advém, nos ritmos do corpo, nos passos dos animais e nos voos auspiciosos das aves, nas árvores e os seus ramos, nas trocas felizes ou difíceis, na fertilidade da constante partilha com quem gosta de cultivar. Nas tão longas conversas que tem com os seus amigos.
Estas pinturas e, sobretudo, estes desenhos do Ricardo Pacheco, dão-nos os percursos de toda esta topografia interna, dão-nos o que está lá dentro e a maturidade sacra do encontro. A consistência da obra do artista, obriga-nos a olhar toda ela para poder observar uma pequena série como esta. E o mesmo acontece no sentido inverso, tal é a sua unidade. Os desenhos que agora nos oferece e dão nome à sua presença nesta mostra, o título deste texto, podem tomar-se como um marco alcançado da sua própria representação.
Sara Constança
Lisboa, 12 de Março de 2010
21 janeiro 2010
Since 'It' Was

Belém 2010
What urged me to come
and say about was the misfortune I had to endure last week in Belém.
I left the ride
near the (summer) restaurants
and set in my own way,
enjoying the rain?,
glad to go by my favourite tree
in Belém. The way to CCB.
For my surprise, as I was going forward, a memory lapse.
Yes, [some time had passed since my last visit to these flat gardens, and I forgot]
where the tree used to stand.
So strange,
never in my life this had happen
before, I must be getting old.
All I could see there were the other trees,
with ‘whom’ I never develop a friendship, and,
it seemed,
all the seagulls of the river mouth were there too.
Unusual.
Where is my tree? I thought.
— As if they were ever mine—
But suddenly I came to realize
they
was probably someone's
trees.
Yes, trees,
the trees I was happy to be passing by,
since I decided early in the morning to go
and see Bacon thinking about Ingres, was
an embrace tree of two distinct trees, as if
they could be anthropomorphized into a couple.
I kept on going
forward, intrigued, and
it wasn't till I got very close
that I understood my memory is [still in good shape.
What a horrifying image that was,]
to know about my own memory
with the death of a friend.
Well, I wouldn’t say it was death what petrified me.
Death is hurtful but it’s natural. One way or another
we all expect death.
Call it a new beginning...
Love!
What ever...
For all I know
(or knew) this tree was a monument.
Old and crumbling, but very strong
and capable of many more
friendships like the one
I was happy to enjoy.
Someone had passed and
decided it was no more and
took her stand away, leaving
just the roots for all to see.
And if death was the issue, my friend
was stripped from the new beginning.
She still exists in me, but no new friends will come
to appreciate how wonderful it could be,
that two very different trees
would grow side by side from the same ground
into a whirling twist,
dancing to the sky. Isn’t that what trees do with the wind?
Why take ‘it’ away?
07 outubro 2009
Make peace
Meco 2009
Pat Metheny & Brad Meldhau, Make Peace.
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Categorias * §, arte, fotografia, música
06 outubro 2009
La liberté?

La liberté guidant le peuple
Eugène Delacroix, 1830.
Óleo sobre tela, 260 x 325 cm.
Musée du Louvre, Paris.
Ou será antes o caso duma liberdade de extensão do USA PATRIOT Act (Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism Act) sob a forma de UE FP7 INDECT Project (Intelligent information system supporting observation, searching and detection for security of citizens in urban environment)? Será que a tendência chegou mesmo à Europa, de vez e para ficar? Será que o nosso 'antigo regime' se renova, agora, por todo o mundo europeu, com a desculpa esfarrapada do terrorismo ou prevenção de conflito (Minority Report)? Acabaram-se de vez as nossas liberdades individuais e já não temos direito à privacidade? Alguma vez tivemos...? Mas agora parece que não temos mesmo...
Fala-se de comportamentos anormais e nós perguntamos... o que é um comportamento anormal?
Esta posta não traz nada de novo pois o assunto está apresentado numa notícia do Público de hoje e a sua polémica foi devidamente notada. Mas, como o texto vai ser arquivado e deixará de estar disponível, o Skápsis resolveu fixar o assunto.
Críticos dizem tratar-se de uma medida "orwelliana"
Internet: projecto europeu vai tentar detectar condutas "anormais"
Um programa de cinco anos financiado pela União Europeia chamado Projecto Indect tem como objectivo desenvolver programas de computador que actuem como agentes de polícia, monitorizando e processando informações de sites, fóruns de discussão, servidores, redes sociais e mesmo computadores individuais. O objectivo é detectar condutas “anormais” ou indícios de violência. Os detractores do projecto já vieram dizer que se trata de uma medida “orwelliana” e um “passo sinistro”.
Foram atribuídos ao projecto 10 milhões de libras (10,9 milhões de euros) e a sua coordenação está a cargo da Universidade AGH de Ciência e Tecnologia, na Polónia. A par com este país, estão igualmente envolvidos a Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Bulgária, República Checa, Eslováquia e Áustria, bem como o serviço policial da Irlanda do Norte, de acordo com o “Telegraph”.
Segundo a página oficial do Projecto Indect, que começou este ano, os grandes objectivos desta acção incluem “o desenvolvimento de uma plataforma de registo e troca de dados operacionais, a aquisição de conteúdo multimédia, o processamento inteligente de todas as informações, a detecção automática de ameaças e o reconhecimento de comportamentos anormais ou violência”.
A página fala ainda da criação de “agentes com a missão de monitorizar continuadamente e automaticamente recursos públicos como sites de Internet, fóruns de discussão, redes sociais, servidores, redes P2P (peer-to-peer), bem como sistemas informáticos individuais, construindo um sistema inteligente, simultaneamente activo e passivo, de recolha de dados com base na Internet”.
Este projecto Indect acontece numa altura em que a União Europeia está a expandir o seu papel de combate ao crime e ao terrorismo, controlando apertadamente os fluxos de migração para dentro das fronteiras europeias. Nos últimos tempos, o orçamento europeu destinado a estas áreas cresceu 13,5 por cento, fixando-se actualmente nos 900 milhões de libras (981 milhões de euros), indica o “Telegraph”.
A Comissão Europeia tem vindo a pedir uma “cultura comum” de reforço das leis de segurança em toda a União Europeia, querendo que cerca de um terço das suas forças policiais recebam formação em assuntos europeus durante os próximos cinco anos.
Medida “arrepiante”
Shami Chakrabarti, director do grupo Liberty de protecção dos direitos humanos, declarou ao “Telegraph” que a introdução de técnicas de vigilância com este alcance é um “passo sinistro” para qualquer país, sendo ainda mais “arrepiante”, se pensarmos que ele tem uma dimensão europeia.
“Analisar populações inteiras em vez de monitorizar suspeitos individuais é um passo sinistro em qualquer sociedade. Se já é suficientemente perigoso a um nível nacional, à escala europeia torna-se verdadeiramente arrepiante”, indicou Chakrabarti.
Por seu lado, Stephen Booth, analista da organização Open Europe (um think-tank com base em Londres e assumidamente eurocéptico), indicou igualmente ao “Telegraph” que a introdução na agenda europeia deste projecto tem ressonâncias “orwellianas” e coloca sérias questões sobre as liberdades individuais, lamentando que os impostos dos cidadãos europeus tenham como destino missões deste tipo.
“Isto é assustador. Estes projectos significam uma enorme invasão de privacidade e os cidadãos precisam de se perguntar se a UE deveria gastar os seus impostos neste tipo de coisas”, disse. “Já alguém se questionou se isto serve mesmo os interesses dos cidadãos?”, acrescentou.
Citado pelo “El País”, David Larrabeiti López - da Universidade madrilena Carlos III, que também participa neste projecto europeu - rejeita qualquer interpretação “orwelliana” desta iniciativa. De acordo com as suas explicações ao diário espanhol, o Indect reúne um conjunto de “ferramentas de interesse em termos de segurança dos cidadãos”, que incluem, entre outras coisas, a análise automática de imagens de vídeo e o rastreio de dados públicos disponíveis na Internet para o seu respectivo reconhecimento com “técnicas de interpretação de linguagem natural”, escreve o “El País”.
David Larrabeiti López opina ainda que as próprias polícias nacionais e os serviços secretos já dispõem de instrumentos de vigilância muito mais potentes e agressivos quando querem localizar suspeitos concretos. “O projecto não pode aceder, por exemplo, a bases de dados policiais nem cruzar endereços de IP com utilizadores”, esclareceu o mesmo responsável. “O uso de dados pessoais está expressamente excluído do projecto e não há nenhuma intromissão na privacidade”, concluiu.
Detectar e imobilizar uma agulha no palheiro
Este Projecto Indect parece aproximar-se de um outro, da própria União Europeia, chamado Projecto Adabts (Automatic Detection of Abnormal Behaviour and Threats in crowded Spaces), coordenado a partir da Suécia e que também procura detectar comportamentos “anormais” em espaços onde se agrupem multidões e que recebeu cerca de três milhões de libras (3,2 milhões de euros) de financiamento.
O coordenador do projecto, Jorgen Ahlberg, da agência sueca de pesquisa defensiva, explicou que este sistema irá analisar uma série de características individuais (incluindo o tom de voz e a linguagem corporal) de determinadas pessoas numa multidão. “Normalmente as pessoas não começam uma luta de um momento para o outro. Começam por gritar umas com as outras, por darem empurrões... Este sistema não vai servir para que as pessoas sejam detidas imediatamente, vai apenas servir para alertar um operador que alguma coisa está a acontecer. Por exemplo, num centro comercial, se for enviado um segurança atempadamente, pode nem sequer chegar a haver desacatos”, explicou Ahlberg, citado pelo Telegraph.
De acordo com o think-tank Open Source, os dados recolhidos pelo Projecto Indect e por sistemas semelhantes poderão ser usados por um organismo europeu pouco conhecido, o SitCen (Joint Situation Centre), que poderá ser o embrião dos serviços secretos europeus. Alguns críticos comentam inclusivamente que se poderá tornar na CIA europeia. Desde 2005 que o SitCen tem servido para recolher e partilhar informação de contra-terrorismo.
Comentários
Comentário 06.10.2009 - 19h59 - Anónimo, mundo
1984... melhor que tentar explicar em 5 linhas o porque de desprezar estas medidas, é deixar os links para dois videos MUITO explicativos dos porques de estas medidas serem orwellianas e absolutistas: fuzilah . posterous . com/open-your-eyes . fuzilah . posterous . com/ask-questions
Comentário 06.10.2009 - 16h14 - Zé Pagode, Lisboa
Cara Amélia, considero então que acha aceitável que sejamos todos vigiados e espiolhados porque aqueles que só têm comportamentos aceitáveis não têm nada a temer. E que comportamentos é que são "aceitáveis"? E se o Big Brother decidir que o partido da Amélia não é "aceitável"? E se usar informação privada sua para lhe vedar acesso a um emprego, porque a Amélia disse mal não sei de quem num email para uma amiga? Pois é, numa sociedade da vigilância ninguém está seguro, ninguém é livre. Comparar isso com um carro-patrulha na estrada é de uma parvoíce imensa.
Comentário 06.10.2009 - 15h09 - Anónimo, lisboa
Pois é... A internet (o Zion dos tempos modernos) o ultimo bastião da liberdade e de troca de informação está sobre grande ataque, e aqueles que se dizem "justos", "correctos" ou que "não fazem nada de censurável" só são assim porque ainda não ilegalizaram nada que façam e que acham normal. Agora quando acabarem com a internet em prol dos grandes interesses financeiros, veremos que o cidadão, os artistas e a própria evolução tecnológica é que serão os mais perderão. Já muitos avisam, mas há sempre as ovelhas que seguem a autoridade sem porem em causa a legitimidade das próprias regras.
Comentário 06.10.2009 - 14h26 - Amélia Costa, Lisboa
Pois eu acho muito bem...não tenho medo destas acções de segurança, do mesmo modo que não travo quando vejo um carro da polícia. Porquê? Porque cumpro os limites de velocidade e porque utilizo a net para actividades que nada têm de censurável...
Comentário 06.10.2009 - 13h53 - Anónimo, Lisboa
quando irão estes burocratas perceber que não há comportamento "normal" humano? a estupidez hoje em dia é viral como a gripe.
Comentário 06.10.2009 - 13h49 - Templário, Eurábia
Pelo menos, ainda bem que avisam. A medida, expressa nestes termos, sempre é dissuasora. Agora não me acredito que esta informação seja destinada à mão de santinhos. Quem puser a mão nesta informação vai dar-lhe todas as utilizações possíveis que o dinheiro permitir. Tudo tem um preço, tudo se compra. E no que toca à política, instituições de poder e grandes empresas... mais não digo. Acredito nos hackers, os quais encarregar-se-ao de tratar da saúde a estes meninos Orwellianos.
Comentário 06.10.2009 - 13h48 - Anónimo, Lisboa
um absurdo ... para legitimizar estas e outras medidas absolutistas é que o tratado de lisboa foi forçado ...
Comentário 06.10.2009 - 13h30 - Filipe, Lisboa
Acho inacreditável que com tanta obra literária ou cinematográfica à volta deste tema, ainda haja alguém com estas ideias de controlar e que pense que isto não é nada invasivo. Então se não é invasivo porque é que o querem fazer? Metam-se na vossa vida e preocupem-se convosco. É por este motivo que os estudantes universitários têm mesmo de poder enfrascar-se à vontade, senão ficam como estes totós, que querem viver a vida dos outros, porque não têm vida própria. Cerveja e Liberdade!
22 junho 2009
Lançamento

Meco 2009
(...) Tenho ainda debaixo do braço muitas setas agudas,
que estão dentro da aljava,
compreensíveis aos cultos; para o vulgo, é preciso
hermeneutas. Artista é aquele
que sabe muito por natureza. Os que tiveram de aprender,
quais corvos loquazes,
que grasnem em vão contra a ave divina de Zeus!
Assesta o arco para o alvo,
eia, coração! A quem atingiremos, com ânimo
de novo brando? A quem lançaremos
as setas da glória? (...)
II.ª Ode Olímpica
Píndaro, Sete Odes de Píndaro, Porto, Porto Editora, 2003.
18 junho 2009
Istigkeit

Meco 2009
When we feel ourselves to be sole heirs of the universe, when "the sea flows in our veins... and the stars are our jewels," when all things are perceived as infinite and holy, what motive can we have for covetousness or self-assertion, for the pursuit of power or the drearier forms of pleasure?
Aldous Huxley, The Doors of Perception, 1954.
03 junho 2009
Cair no sono

Lisboa 2009
Estava a cair no sono, o tremor febril abrandava; de súbito pareceu-lhe sentir qualquer coisa, debaixo do cobertor, a correr-lhe pelo braço, pela perna. Estremeceu: «Raios, um rato? — pensou. — Foi porque deixei a vitela em cima da mesa...» Não lhe apetecia descobrir-se, levantar-se, apanhar frio, mas logo lhe voltou a roçar pela perna algo desagradável; arrancou o cobertor de cima dele e acendeu a vela. Tremendo de frio e febre, dobrou-se para examinar a cama — nada; sacudiu o cobertor, saltou de lá um rato para o lençol. Quis apanhá-lo: o rato não fugia da cama, só ziguezagueava para todos os lados, deslizava, esgueirava-se-lhe por entre os dedos e, subitamente, enfiou-se debaixo da almofada; atirou a almofada para o chão mas, no mesmo instante, sentiu que o rato já lhe entrara por debaixo da camisa, lhe corria pelo corpo, já passara para as costas... Estremeceu nervosamente e acordou. O quarto estava escuro, e ele na cama, agasalhado no cobertor como antes; por trás da janela uivava o vento. «Que merda!» — pensou aborrecido.
Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, Lisboa, Presença, 2003.
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Categorias * §, arte, ficção, fotografia
09 abril 2009
Teremim
Camille Saint-Saëns, Le Carnaval des animaux, Le Cygne,
Clara Rockmore ao piano da irmã, Nadia Reisenberg.
24 março 2009
05 novembro 2008
Aspirante
Folies d'Espagne de Marin Marais por Jordi Savall. Tous les Matins du Monde
de Alain Corneau, 1991. Guillaume Depardieu como Marain Marais.
31 outubro 2008
Brobdingnag

Lisboa 2008
(...) But if I should describe the Kitchen great, the prodigious Pots and kettles, the joints of Meat turning in the Spits, with many other Particulars, perhaps I should be hardly believed; at least a severe Critic would be apt to think I enlarged a little, as Travelers are often suspected to do. (...)
Jonathan Smith, Gulliver's Travels, London, Penguin, 2003.
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Categorias * §, arte, filosofia, fotografia
07 setembro 2008
SD spintadesign

Aos fieis leitores deste blogue agradecemos a continuada atenção às postas que se têm tornado cada vez mais escassas. Neste momento o Skapsis está a publicar uma vez por mês, tal como passou a fazer no ano corrente, e assim nos parece que continuará salvo raras excepções.
Desta vez é tempo de vir anunciar o atelier de design que esteve, desde o início em silêncio, por detrás das opções estilísticas deste layout. Pelo que agradecemos à SD spintadesign o apoio que nos tem dado. Obrigada pela vossa atençã0 e até à próxima posta.
22 julho 2008
Outras postas
A tentativa de se estabelecer uma definição do que é a arte, não é tarefa impossível, mas, sem querer parecer demasiado derrotista ou negativa, só posso considerá-la fútil. E, para quem pretende seguir com esse empreendimento (sem diminuir o valor dos tantos trabalhos já publicados) será necessário, antes de mais, perceber qual é o grupo sociocultural, assim como político e profissional, de quem frui. Quem analisa e qual é o objectivo de quem se lança para esta tarefa eventualmente interminável?
Mas o perfil de quem aprecia um objecto declarado arte e o objectivo de quem o declara, ou analisa a validade dessa declaração (muitas vezes a mesma pessoa, e o que a produz acaba por não ter voto real na matéria), não é o que de todo em todo revela fútil a tentativa desta definição. Para além do fruidor como elemento fundamental, de modo a que se perceba a efectividade de uma definição do que é arte, será também fundamental desvelar o paradigma que está por detrás, ou na base, do conhecimento — seja ele estésico, mnémico, empírico ou técnico, como poderia dizer Aristóteles na sua pirâmide invertida — daquilo que se pode considerar um objecto de arte e a sua compreensão enquanto tal. De que época se trata e qual é a mentalidade civilizacional que está a tratar?
Depois de saber quem e porque o faz, quando e a que referências recorre para compreender quais referências. Só podemos chegar à inevitável conclusão de que esta tarefa, que é muito válida enquanto tentativa, se mostra fútil pelo que tem de relativa, sem chegar de facto a algum predicado definitório. Isto poderia dizer-se de qualquer definição cujos elementos que mostro no início deste parágrafo não estejam suficientemente estabelecidos.
Com isto quero dizer que tanto a definição mimética, como a formalista, a expressionista ou a de indefinível, seja ela qual for, estão todas certíssimas, pelo simples facto de que cumprem o objectivo compreensivo a que se propõem em cada uma das épocas em que surgiram. Digo mais, todas essas definições, tomando o ponto de vista certo, estão ainda hoje válidas, e, de forma geral, se é que se arrogam a uma definição geral, estão e estarão sempre erradas. Como diz o próprio título da posta, não sei se com todo o propósito, trata-se de “O enigma da arte”. Sendo este enigma um dos mistérios — senão aquele mesmo — que mais se deve preservar. E como qualquer outro mistério, não é para ser conhecido se não se quer que perca a sua validade enquanto tal. O enigma está posto para se abrir, mas o mistério age como a sua forma última, o aporético. O enigma da arte é, em última circunstância, aporético. Não passa. Não que não se possa definir mas a sua abertura não se dá, ou vai-se dando, bolsa a bolsa, círculo a círculo, como o tempo numa comédia interminável.
E dizer o que é a arte hoje, ainda se torna mais ridículo, pois dizendo o que ela é hoje, está a falar-se do que ela já não é. Escusa-se uma tentativa de análise lógica por reductio ad absurdum. E aqui não posso concordar mais com o autor desta posta, quando diz que “Todos parecemos saber perfeitamente bem o que é a arte, mas mal tentamos explicar o que ela realmente é, enredamo-nos em contradições e implausibilidades.”. Está visivelmente recordado do que disse Santo Agostinho acerca do tempo. Pois, não é de todo errado comparar a compreensão que se tem do tempo com a que se tem da arte. Compreensão que evolui à medida que mais fundo nela se pensa, e se vão descobrindo os meandros das nossas possibilidades compreensivas.
Sendo assim, qualquer obra que se proponha dar uma definição de arte, embora possa ter imenso interesse e forneça riquíssima cultura geral, não cumpre outro objectivo que não o de um exercício de estilo numa análise tópica, ou mesmo epidérmica, tal como esta crítica que acaba de ser escrita.
12 junho 2008
Tataki

Estate
Giuseppe Arcimboldo, 1573.
Óleo sobre tela, 61 x 50,8 cm.
Musée du Louvre, Paris.
Noite de Verão —
uma pancada no portão,
uma pancada na porta...
Como a esperança responde
ao bater no parapeito.
Isumi Shikibu
Luísa Freire (org./trad.), O Japão no Fiminino — Tanka, séculos IX a XI, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.
01 maio 2008
Imagem mental
The Nativity Story
Catherine Hardwicke 2006
Na origem do simulacro está a imagem mental. Esse ser caprichoso e impalpável reflecte o mundo e, ao mesmo tempo, sujeita-o à fúria combinatória, usando-lhe as formas numa proliferação interminável. Gera uma força prodigiosa, o terror perante aquilo que se vê no invisível. Tem todas as características do arbitrário e do que nasce nas trevas, do indistinto, como outrora talvez tenha nascido o mundo. Mas, desta vez, o caos é a vasta tela tenebrosa atrás dos nossos olhos, sob a qual se desenha a dissipação fosfénica. Aquela formação das imagens repete-se a cada instante, em cada indivíduo. Mas a sua particularidade não reside apenas nisso. Quando o simulacro se apodera da mente, quando começa a agregar-se a outras figuras afins ou opostas, a pouco e pouco ocupa o espaço da mente numa concatenação cada vez mais minuciosa. Aquilo que se tinha apresentado como a própria maravilha da aparição, desligada de tudo, associa-se agora, de simulacro em simulacro, a tudo.
Numa extremidade da imagem mental existe a estupefacção pela forma, pela sua existência auto-suficiente e soberana. Na outra extremidade, existe a estupefacção perante a cadeia dos laços que reproduzem na mente a fatalidade da matéria. É difícil ver esses dois extremos que sobressaem no leque do simulacro, e é insuportável vê-los simultaneamente. Para os gregos, a figura dessa visão foi Helena, a beleza encerrada no ovo da fatalidade.
05 abril 2008
Möbius
Transformação de Moebius Revelada
Douglas N. Arnold & Jonathan Rogness, 2007.
University of Minnesota.
01 abril 2008
Não é um sentido mudo
(…) O verdadeiro não se define nem por uma conformidade ou uma forma comum, nem por uma correspondência entre as duas formas. Há disjunção entre falar e ver, entre o visível e o enunciável: “aquilo que se vê não se aloja nunca naquilo que se diz”, e reciprocamente. A conjunção é impossível a um duplo título: o enunciado tem o seu próprio objecto correlativo, e não é uma proposição que designaria um estado de coisas ou um objecto visível, como o desejaria a lógica; mas o visível também não é um sentido mudo, um significado de potência que se actualizaria na linguagem, como o desejaria a fenomenologia. (…)
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