A valsa da cintura
A descoberta progressiva dos objectos que compões a cintura de astroides no interior do sistema solar de 1980 a 2010. É de notar o enorme aumento de objectos a partir do lançamento do WISE.
A descoberta progressiva dos objectos que compões a cintura de astroides no interior do sistema solar de 1980 a 2010. É de notar o enorme aumento de objectos a partir do lançamento do WISE.
Aproximação e aterragem na pista 03 de Lisboa, Portugal (LPPT).
Pelo Cmdt. António Escarduça, acompanhado pelo And Then I Knew de Pat Metheney.
Aproximação e aterragem na pista 21 de Lisboa, Portugal (LPPT).
Pelo Cmdt. António Escarduça, acompanhado pela Vtlava do Ma Vlast de Smetana.
Transformação de Moebius Revelada
Douglas N. Arnold & Jonathan Rogness, 2007.
University of Minnesota.
Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Lisboa, Cotovia, 1990.

Primitive Blaze
Bridget Riley, 1963-64.
Emulsão sobre placa, 94,5 x 94,5.
Sotheby's, Londres.
(…) — “que significa pensar? A que se chama pensar?” — (…)
Em seguida, em função do poder enquanto problema, pensar é emitir singularidades, é lançar os dados. Aquilo que o lance de dados exprime, é que pensar provém sempre do de-fora (desse de-fora que já se precipitava no interstício ou constituía o limite comum). Pensar não é nem inato nem adquirido. Não é o exercício inato de uma faculdade, mas não é também um learning que se constitui no mundo exterior. (…) a genitalidade do pensamento enquanto tal, um pensamento que vem de um de-fora mais longínquo que todo e qualquer mundo exterior, e portanto mais próximo que todo e qualquer mundo interior. Será necessário chamar Acaso a esse de-fora? (...)
Os leitores que se tornaram assíduos do Skapsis sabem que aqui não é comum anunciar espectáculos por vir ou em cena, mas desta vez teve de abrir-se uma excepção. Ontem tive a oportunidade de assistir ao inesperado desempenho de um excelente artista Japonês, integrado no festival Temps d'Images. Hiroaki Umeda volta ao palco hoje pelas 21h30 na Culturgest.
Este coreógrafo começou por estudar fotografia para depois se voltar para a dança. «A dança é a tempo real.» Disse ontem aos espectadores que o foram ouvir depois, como justificação para esta mudança de disciplinas. Contudo, não ouve propriamente uma mudança de disciplinas mas uma modificação na abrangência das disciplinas. Hiroaki estudou fotografia (desenho da luz) e dança (desenho do corpo) por pouco tempo, e cedo se tornou autodidata — também nos confidenciou. Mas nestas duas peças em exibição, While Going to a Condition e Finore, o artista também concebeu a banda sonora. O resultado é de uma impressionante fluidez com altíssima qualidade. Disse-nos ainda que o desenho da luz e do som (hipnótico e industrial) não é menos importante que o do seu corpo, um objecto em movimento, insignificante como qualquer movimento, completamente integrado no conjunto.
Corpo, luz e som, numa coreografia de sincronias rítmicas complexas que dificilmente podem ser descritas sem cair nos tecnicismos de uma linguagem incompreensível. Embora se possa fazer alguma descrição da luz e do som, a coreografia corporal que Hiroaki dança tem de ser experimentada ao vivo, razão pela qual não se apresenta aqui mais que uma imagem da primeira peça.
A não perder!
Fotografia de F.Villemin

Leo Delibes, Sylvia.
Coreografia de Frederik Ashton por Chistopher Newton
para a Metropolitan Opera House com Paloma Herrera
e o American Ballet Theatre, 2005.
Chi crederia che sotto umane forme
e sotto queste pastorali spoglie
fosse nascosto un Dio? (…)
Torquato Tasso, Aminta.
Italia, De Bibliotheca, 2005.
Du darfst
mit Schnee bewirten:
sooft ich Schulter an Schulter
mit dem Maulbeerbaum schritt durch den Sommer,
schrie sein jüngstes
Blatt.
Podes confiante
acolher-me com neve:
sempre que eu ombro a ombro
com a amoreira atravessava o verão,
gritava a sua mais jovem
folha.
Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006
Menino veloso lido da luz,
tenho uma nova maneira do acordar.
O beijo que se desprende da imagem na claridade
de lençóis brancos dos teus baptismos. Sonho-te
continuamente
e acordo inspiradíssima,
como tendo unicamente inspirado durante o sono
e só ao acordar pudesse deitar. Ar vivo!
É enorme encontrar!
Disse-me um dia que, ao inspirar os dias e as coisas,
a sua amiga entrara na demora completa, para nela ficar
até ao sacro momento de todas sair. Sim, o que me dá norte.
E neste todo lirismo encantado, sonho de-lírio em-cantar,
danço pelo caminho que me abre
até que a expiração surja vinda de uma lonjura
rica por todas as sensações.
Sagrado deitar.
Abres-me e nem sabes como.
E assim voltam num florir que me escorre da boca
com pétalas de veludo; todas as coisas, e os dias, nesta hera
lidos como no voo do pássaro solto. Parecem querer ir ter contigo.
Umbigo do mundo d’acesso divino,
diverso escorrido livre como o vento.
Comovente.
E num contínuo real tudo se ergue de novo
como num dia cheio de perfumes desejáveis.
Quero cheirar-te para sempre!
Quero florir-te para sempre!
Quero mergulhar-te-me-te continuamente..., e largar todos os laços,
todas as amarras, e ditos e palavras,
avançar pelo tempo.
Contigo-me-te-migo-tu florir-te-me-nos.
Oxalá,
numa barca d'infinita viagem,
largo a ressoar para nunca mais perder
o que enorme foi encontrar. E digo-te,
sabedoria das alturas, a tua filha sabe cantar.
"Pois cada um dos Celestiais quer sacrifícios.
E se algum for omitido,
Nada de bom acontece."
É enorme cantar!
É enorme dançar!
E essa dureza d’acesso à vida, doce
que por ver-te rodar se eleva exultando e grita cores vivas,
é o rito profundo lar que se estende para erguer, nosso olhar,
que se há palavras: só podem ser estas
a fazer-te justiça.
E assim solta-s’o pião que o todo sabe e ensina,
torneando luz fina d’amar danço,
continuamente contigo,
não se esgota o canto
no trilho de um sorriso. Altíssimo da bênção d’altar
que vindo ao lar, escorre ainda as águas.
Cristalinas áureas rosáceas do santo perfume,
menino veloso lido da luz,
és tu que me tiras da cruz;
és tu que me dás de novo, e novo,
e novo despontar.
Inspira junto comigo
esta nova maneira do acordar.
Acorda. Brandindo archotes nas mãos,
aproxima-te, Iaco, Oh Iaco,
astro que traz a luz da festa nocturna.
Brilha de archotes o prado.
Treme o joelho dos velhos
e sob a dança sagrada, varrem os cuidados
e os anos longos de suas idades antigas.
E tu, brilhando com a tua tocha,
faz avançar aqui
para o prado florido e húmido,
oh bem aventurado,
a juventude que forma os teus corpos.

Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado
de puros volumes de água.
Nenhuma busca tão funda, a tal pressão,
como pesa na água uma ilha fria,
a raiz de uma ilha.
Uns procuram ramas de ouro.
Outros, filões de púrpura unindo
sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
as queimaduras no escuro. Há quem seja
terrestre.
Tu esbracejas entre sal agudo.
Não falas, mal respiras, moves-te apenas
e fulguras
como uma estrela cheia de bolhas.
Feroz, paciente, arremetido, mortal, centrífugo.
Com todo o peso do coração no centro.
Herberto Helder, Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.
Pina Bausch, Café Müller, 2002.
Wuppertal Tanztheater ao som do
The Fairy Queen de Henry Purcell.

Rodrigo Pederneiras, Lecuona, 2005.
Grupo Corpo ao som dos Tus Ojos Azules
de Ernesto Lecuona.
Da musa venha discurso
Fluido d'oralidade,
Correndo a literatura
A ser em pleno.
D'ondas faça recurso
Emboida vitalidade,
Metendo a mesura
Na boca de Sileno.
As memórias das letras
São falsas memórias,
Nem lapis, nem canetas,
Sabem contar histórias.
Do som vem o sentido
Sentindo bem Brómio,
Nem visto, nem escondido,
Anjo mente demónio.
Devenha o seu uso
Em viva liberdade,
Lóxias na lonjura
Da Pítia p'lo treno.
Desfaça-se o abuso
E venha a verdade,
Ó Febo da iluminura
Sai já do terreno.
Ó distante cruel
As setas são d'amar,
Fica no teu papel
E deixa dançar.
Que do fiel cão
Astuto caçador seu,
Quem dança bem são
É o sábio Zagreu.
E as portas devagar
Já se abrem pró céu,
Começando a largar
Por cima do véu.
E tu musa, canta
O Zagreu disperto,
Se o Apolo espanta
O caminho é certo.
Publicado a 23 de Março de 2007 no Odeio o Mundo Agora!