Que o amigo seja para vós a festa da terra
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03 fevereiro 2011

Alçado fotográfico

05 julho 2010

A primeira natureza da luz


































Quando pensamos na antiguidade, nos episódios históricos que já foram, não imaginamos que seja possível retomá-los, como se pudessemos reviver o simpósio de Platão, e ouvir em primeira mão o discurso de Aristófanes. Mas, de certa forma, é isso que a ESA está a tentar fazer com o nosso céu. A "máquina fotográfica" do Planck dá-nos de volta uma resonância da primeira luz da nossa existência universal. É tão incrível quanto isso! Uma fotografia da primeira luz de todas as luzes de sempre. Não será a primeira fotografia mas é a primeira fotografia da primeira luz deste universo.
























Um mapa completo do nosso céu, que por ter sido feito nas nossas imediações, apresenta o ângulo fotográfico subjectivo da Terra, captando os gases e o pó celestial de onde se formaram todas as estrelas à cerca de 14 mil milhões de anos. Para isto ser possível os sensores do satélite tiveram de ser arrefecidos até muito próximo do zero absoluto, de modo a captarem-se variações de temperatura que são cerca de um milhão de vezes menores que um grau. Se o zero absoluto, medido em graus Kelvin é zero, 0ºK, em graus Celcius são -273,15ºC, e os sensores do aparelho trabalham a -273,05ºC. A viagem no tempo para a primeira luz faz-se praticamente no zero absoluto. E a imagem que vemos abaixo inclui relíquias de radiação da luz do Big Bang, a tal primeira luz, a pontilhado amarelo, inclui o pó celestial da nossa galáxia a azul, e a vermelho temos gases de temperaturas altas. Na imagem de cima a Via Láctea é desenhada por uma risca horizontal quase branca, de onde se vêm partir, para cima e para baixo, correntes de pó celestial frio que se estendem por milhares de anos luz.




























Este telescópio faz uma fotografia panorâmica da anisotropia esférica de todo o universo em torno de si mesmo, captando as já muito arrefecidas micro ondas da radiação cósmica de fundo do nosso universo, que, segundo a astrofísica, é o resultado actual da primeira emisão de luz do universo, o primeiro nascimento, a primeira natureza da luz, o Big Bang. É isto que espanta sem fim... uma fotografia do Big Bang de dentro para fora.


















O Planck faz um varrimento do céu por aneis que têm, cada um, cerca de 15º em largura, demorando mais ou menos seis meses a completar a imagem do céu inteiro. O tempo operacional do Planck foi calculado em 15 meses, pelo que serão feitos dois varimentos completos do céu.



E é assim que recuando no tempo enquanto se olha para a frente, pudemos retomar o primeiro de todos os discursos, e perceber como viemos aqui parar a este lugar no cosmos. Será que o Big Bang é mesmo o início de tudo? Será que tem vindo a expandir-se e assim continuará, até à escuridão, como é dito na mitologia contemporânea? Será que podemos continuar a dividir o conhecimento entre crentes, ateus e agnósticos?

20 março 2010

Totum



















Lisboa 2010
(Panorâmica lowfi com telemóvel de gama baixa)

Exposição de Ricardo Pacheco
18 de Abril da 20 de Maio
Galeria Prova de Artista


TOTUM
desenhos de Ricardo Pacheco

Ricardo Pacheco nasceu em 1974 e fez o seu percurso académico na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Vive e trabalha em Lisboa, mas o seu trabalho não têm um lugar fixo nem surge de onde se possa indicar — pertence exclusivamente à pintura. Pintura do interior. Não do interior gasto e comum das novas tendências mas um interior completamente perene e genuíno.

O seu trabalho é honesto, inteiro e sincero. É de um desenhador hábil que desde muito cedo deixa cair o traço que empresta à sua imaginação, e nos mostra os outros que também somos. Sempre teve uma grande facilidade para a representação visual do mundo que o rodeia, mas é a imaginação profunda que começa cada vez mais a ter lugar nas suas obras: uma relação pura e desprotegida, perigosa e arriscada, com essa coisa que é o mundo do imaginar, da imagem que não tem forma, corpo ou matéria. E mergulha nela com a mesma intensidade como na água que o sacia. Mas a sua obra nada tem de abstracta, embora isso possa não ser claro à partida. É uma representação constante do outro que está fora e dentro dele mesmo, um mundo figurativo que existe mas que nem sempre temos a possibilidade de contemplar.

Na relação com o outro, e com o nosso próprio identificável, o que mais nos toca é o rosto. O rosto do amigo, o rosto da mãe, se ainda o temos connosco… o rosto da nossa casa, do nosso corpo, da terra que nos diz. O rosto ancestral do mundo, da ressonância histórica que dá forma e lança. Aquela fisionomia inefável do Tu e Eu. A relação pessoal que temos com certos lugares. A nossa natureza: quer ela seja urbana, rural, política ou tão simplesmente natural. A nossa própria natureza enquanto paisagem de um mundo que dificilmente chegamos a conhecer. Que forma têm as coisas? O que é o formal? Ricardo não procura o rosto meramente dito, ou tão facilmente reconhecível como face, mas um que lhe diga quem é e onde está com mais lealdade. É o rosto que está no espelho que fica por detrás dos olhos. Na verdade, o rosto é uma máscara que nos trava a atenção ao reconhecível, mas estamos tão habituados a fazer um reconhecimento simples e directo das fisionomias mais íntimas, por associação às faciais da superfície, que por ínfimos instantes de segundo julgamos compreender, e não nos é dada a oportunidade de saber isso em consciência. Aquilo que nos é mais familiar é o que de mais estranho nos é dado acesso.

De frente a uma tela branca temos tendência para procurar. «O que é que eu vejo, onde está o rosto?» E essa força que nos leva à procura é o que impede o encontro. Tão simples como encontrar exactamente o que procurávamos, e perder o que não sabíamos que lá estava. Será que sabemos quem somos? Pode argumentar-se que somos quem achamos que somos, e fique-se por aí para não complicar mais o que já é por demais complicado. Mas isso será o que achamos que somos, não aquilo que somos, e o que achamos nessa procura não é o que deixamos perdido quando a procura comanda o encontro...

O encontro é a metodologia deste artista que não procura, num processo criativo que se deixa encontrar a si e por si. O encontro de si mesmo vezes e vezes sem conta, coado pelas múltiplas relações com o mundo e com as pessoas. É na sua incansável abertura à vida e ao que nela advém, nos ritmos do corpo, nos passos dos animais e nos voos auspiciosos das aves, nas árvores e os seus ramos, nas trocas felizes ou difíceis, na fertilidade da constante partilha com quem gosta de cultivar. Nas tão longas conversas que tem com os seus amigos.

Estas pinturas e, sobretudo, estes desenhos do Ricardo Pacheco, dão-nos os percursos de toda esta topografia interna, dão-nos o que está lá dentro e a maturidade sacra do encontro. A consistência da obra do artista, obriga-nos a olhar toda ela para poder observar uma pequena série como esta. E o mesmo acontece no sentido inverso, tal é a sua unidade. Os desenhos que agora nos oferece e dão nome à sua presença nesta mostra, o título deste texto, podem tomar-se como um marco alcançado da sua própria representação.

Sara Constança
Lisboa, 12 de Março de 2010

21 janeiro 2010

Since 'It' Was
























Belém 2010


What urged me to come
and say about was the misfortune I had to endure last week in Belém.

I left the ride
near the (summer) restaurants
and set in my own way,
enjoying the rain?,

glad to go by my favourite tree
in Belém. The way to CCB.

For my surprise, as I was going forward, a memory lapse.

Yes, [some time had passed since my last visit to these flat gardens, and I forgot]
where the tree used to stand.

So strange,
never in my life this had happen
before, I must be getting old.

All I could see there were the other trees,
with ‘whom’ I never develop a friendship, and,
it seemed,

all the seagulls of the river mouth were there too.

Unusual.

Where is my tree? I thought.
— As if they were ever mine—
But suddenly I came to realize
they
was probably someone's
trees.
Yes, trees,

the trees I was happy to be passing by,
since I decided early in the morning to go
and see Bacon thinking about Ingres, was
an embrace tree of two distinct trees, as if
they could be anthropomorphized into a couple.

I kept on going
forward, intrigued, and
it wasn't till I got very close
that I understood my memory is [still in good shape.
What a horrifying image that was,]
to know about my own memory

with the death of a friend.
Well, I wouldn’t say it was death what petrified me.
Death is hurtful but it’s natural. One way or another
we all expect death.

Call it a new beginning...

Love!
What ever...

For all I know
(or knew) this tree was a monument.
Old and crumbling, but very strong
and capable of many more
friendships like the one
I was happy to enjoy.

Someone had passed and
decided it was no more and
took her stand away, leaving
just the roots for all to see.

And if death was the issue, my friend
was stripped from the new beginning.

She still exists in me, but no new friends will come
to appreciate how wonderful it could be,
that two very different trees
would grow side by side from the same ground
into a whirling twist,

dancing to the sky. Isn’t that what trees do with the wind?
Why take ‘it’ away?

07 outubro 2009

Make peace


Meco 2009
Pat Metheny & Brad Meldhau, Make Peace.

22 junho 2009

Lançamento



















Meco 2009


(...) Tenho ainda debaixo do braço muitas setas agudas,
que estão dentro da aljava,
compreensíveis aos cultos; para o vulgo, é preciso
hermeneutas. Artista é aquele
que sabe muito por natureza. Os que tiveram de aprender,
quais corvos loquazes,

que grasnem em vão contra a ave divina de Zeus!
Assesta o arco para o alvo,
eia, coração! A quem atingiremos, com ânimo
de novo brando? A quem lançaremos
as setas da glória? (...)



II.ª Ode Olímpica
Píndaro, Sete Odes de Píndaro, Porto, Porto Editora, 2003.

18 junho 2009

Istigkeit
























Meco 2009


When we feel ourselves to be sole heirs of the universe, when "the sea flows in our veins... and the stars are our jewels," when all things are perceived as infinite and holy, what motive can we have for covetousness or self-assertion, for the pursuit of power or the drearier forms of pleasure?

Aldous Huxley, The Doors of Perception, 1954.

03 junho 2009

Cair no sono
























Lisboa 2009


Estava a cair no sono, o tremor febril abrandava; de súbito pareceu-lhe sentir qualquer coisa, debaixo do cobertor, a correr-lhe pelo braço, pela perna. Estremeceu: «Raios, um rato? — pensou. — Foi porque deixei a vitela em cima da mesa...» Não lhe apetecia descobrir-se, levantar-se, apanhar frio, mas logo lhe voltou a roçar pela perna algo desagradável; arrancou o cobertor de cima dele e acendeu a vela. Tremendo de frio e febre, dobrou-se para examinar a cama — nada; sacudiu o cobertor, saltou de lá um rato para o lençol. Quis apanhá-lo: o rato não fugia da cama, só ziguezagueava para todos os lados, deslizava, esgueirava-se-lhe por entre os dedos e, subitamente, enfiou-se debaixo da almofada; atirou a almofada para o chão mas, no mesmo instante, sentiu que o rato já lhe entrara por debaixo da camisa, lhe corria pelo corpo, já passara para as costas... Estremeceu nervosamente e acordou. O quarto estava escuro, e ele na cama, agasalhado no cobertor como antes; por trás da janela uivava o vento. «Que merda!» — pensou aborrecido.

Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, Lisboa, Presença, 2003.

24 março 2009

Nada, é indizível.


















Sintra 2009


Não vemos quem é mais.
Não vemos porque está
no que em nós é estar.

2002

31 outubro 2008

Brobdingnag
























Lisboa 2008


(...) But if I should describe the Kitchen great, the prodigious Pots and kettles, the joints of Meat turning in the Spits, with many other Particulars, perhaps I should be hardly believed; at least a severe Critic would be apt to think I enlarged a little, as Travelers are often suspected to do. (...)


Jonathan Smith, Gulliver's Travels, London, Penguin, 2003.

01 abril 2008

Não é um sentido mudo















Lisboa 2008


(…) O verdadeiro não se define nem por uma conformidade ou uma forma comum, nem por uma correspondência entre as duas formas. Há disjunção entre falar e ver, entre o visível e o enunciável: “aquilo que se vê não se aloja nunca naquilo que se diz”, e reciprocamente. A conjunção é impossível a um duplo título: o enunciado tem o seu próprio objecto correlativo, e não é uma proposição que designaria um estado de coisas ou um objecto visível, como o desejaria a lógica; mas o visível também não é um sentido mudo, um significado de potência que se actualizaria na linguagem, como o desejaria a fenomenologia. (…)


Gilles Deleuze, Foucault, Lisboa, Vega, 1998.

10 março 2008

InSignificante













Fanny och Alexander
Ingmar Bergman, 1982.


(…) Tudo pode acontecer;
tudo é possível e provável.
O tempo e o espaço não existem.
Num insignificante tecido da realidade,
a imaginação desenha e entretece novos padrões (…)


August Strindberg, O Sonho, 1901.

12 novembro 2007

Do céu, na montanha


















Atlântico 2004


Abglanzbeladen, bei den
Himmelskäfern,
im Berg.

Den Tod,
den du mir schuldig bliebst, ich
trag ihn
aus.

Carregado de brilhos, entre
os escaravelhos do céu,
na montanha.

A morte
que me ficaste a dever, eu
carrego-a
até ao fim.


Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, trad. J.Barrento, Lisboa, Cotovia, 1996.

09 novembro 2007

Inesperado desempenho










Os leitores que se tornaram assíduos do Skapsis sabem que aqui não é comum anunciar espectáculos por vir ou em cena, mas desta vez teve de abrir-se uma excepção. Ontem tive a oportunidade de assistir ao inesperado desempenho de um excelente artista Japonês, integrado no festival Temps d'Images. Hiroaki Umeda volta ao palco hoje pelas 21h30 na Culturgest.

Este coreógrafo começou por estudar fotografia para depois se voltar para a dança. «A dança é a tempo real.» Disse ontem aos espectadores que o foram ouvir depois, como justificação para esta mudança de disciplinas. Contudo, não ouve propriamente uma mudança de disciplinas mas uma modificação na abrangência das disciplinas. Hiroaki estudou fotografia (desenho da luz) e dança (desenho do corpo) por pouco tempo, e cedo se tornou autodidata — também nos confidenciou. Mas nestas duas peças em exibição, While Going to a Condition e Finore, o artista também concebeu a banda sonora. O resultado é de uma impressionante fluidez com altíssima qualidade. Disse-nos ainda que o desenho da luz e do som
(hipnótico e industrial) não é menos importante que o do seu corpo, um objecto em movimento, insignificante como qualquer movimento, completamente integrado no conjunto.

Corpo, luz e som, numa coreografia de sincronias rítmicas complexas que dificilmente podem ser descritas sem cair nos tecnicismos de uma linguagem incompreensível. Embora se possa fazer alguma descrição da luz e do som, a coreografia corporal que Hiroaki dança tem de ser experimentada ao vivo, razão pela qual não se apresenta aqui mais que uma imagem da primeira peça.

A não perder!


Fotografia de F.Villemin

07 novembro 2007

Como o vento que nos bate nas costas














(...) A lógica de um pensamento não é um sistema racional em equilíbrio. (...) A lógica de um pensamento é como o vento que nos bate nas costas, uma série de rajadas e choques. Cuidávamos estar perto do porto e en-contramo-nos lançados em pleno mar alto (...). (...)

A Vida Como Obra de Arte
Gilles Deleuze, O Mistério de Ariana, Lisboa, Vega, 1996.



Fotografia das galáxias NGC 2207 e IC 2163 por HST, NASA.

19 outubro 2007

Tetrada
























Match-Point
Alexandre Bobone, 2007.
Metal e bolas de ténis, 28 cm.
Candeeiro de série da Bigornalouca.

21 setembro 2007

O eterno retorno não se diz do Mesmo

















Serra da Estrela 1996

(...) Mas, o difícil é a interpretação destas palavras: eterno retorno do Mesmo. Porque não está aí suposta nenhuma forma de identidade, e porque cada eu dissolvido não volta a passar por si a não ser ao passar pelos outros, ou não se quer a si mesmo a não ser por meio das séries de papéis que não são ele. A intensidade, sendo desde logo diferença em si, abre-se em séries disjuntivas, divergentes. Mas, precisamente, por não estarem as séries submetidas à condição da identidade de um conceito em geral, bem como não está submetida à identidade de um eu como indivíduo a instância que as percorre, as disjunções permanecem disjunções, deixando a sua síntese de ser exclusiva ou negativa, para tomar, pelo contrário, um sentido afirmativo em que a instância móvel passa por todas as séries disjuntivas; numa palavra, a divergência e a disjunção como tais tornam-se objectos de afirmação. O verdadeiro sujeito do eterno retorno é a intensidade, a singularidade; daí a relação entre o eterno retorno como intencionalidade realizada e a vontade de poder como intensidade aberta. Ora, desde que a singularidade se apreenda como pré-individual, fora da identidade de um eu, quer dizer, enquanto fortuita, ela comunica com todas as outras singularidades, sem deixar de formar com elas disjunções, disjunções em que ela passa por todos os termos disjuntivos afirmando-os em simultâneo, em vez de os repartir em exclusões. (…)
(…) O que o eterno retorno expressa é este novo sentido da síntese disjuntiva
— e nesse sentido o eterno retorno não se diz do Mesmo («ele destrói as identidades»). Pelo contrário, o eterno retorno é o único Mesmo, mas que se diz do que difere em si — do intenso, do desigual ou disjuntivo (vontade de poder). Ele é o todo, mas que se diz do que é desigual, a Necessidade, que se diz apenas do fortuito. É unívoco: ser, linguagem ou silêncio unívocos. Mas o ser unívoco diz-se de entes que não o são, a linguagem unívoca aplica-se a corpos que não o são, o silêncio «puro» rodeia palavras que não o são. Seria pois vã a procura da simplicidade de um círculo no eterno retorno, bem como a procura da convergência de séries em torno de um centro. Se círculo há, é o circulos vitiosus deus: aí, a diferença está no centro, e o circuito consiste na eterna passagem pelo meio das séries divergentes — circulo que é sempre descentrado por uma circunferência excêntrica. O eterno retorno é Coerência, mas é uma coerência que não deixa que subsista a minha, a do mundo e a de Deus. Também a repetição nietzschiana nada tem a ver com a kierkgaardiana, ou, mais geralmente, a repetição do eterno retorno nada tem a ver com a cristã. (…) Há uma diferença de natureza entre o que retorna «de uma vez por todas» e o que retorna para todas as vezes, uma infinidade de vezes. Do mesmo modo, o eterno retorno é o Todo, mas Todo que se diz dos membros disjuntivos ou das séries divergentes: não faz com que tudo retorne, faz com que nada retorne do que retorna uma só vez, nada retorne do que pretende recentrar o círculo, do que pretende tornar as séries convergentes, restaurar o eu, o mundo e Deus. Cristo não retornará no círculo de Diónisos, a ordem do anticristo afasta a outra. Tudo o que, fundado em Deus, faz da disjunção um uso negativo ou exclusivo, tudo isso é negado, tudo isso é excluído pelo eterno retorno. (...)

Gilles Deleuze, O Mistério de Ariana, Lisboa, Vega, 1996.

07 setembro 2007

Bergauf



















Aveiro 2006

Não vemos nada,
só nos chega a luz.

Ver algo
será certamente
iluminá-lo.

12-03-2004

21 agosto 2007

Haverá mais
























Agosto 2007

Es wird noch ein Aug sein,
ein fremdes, neben
dem unsern: stumm
unter steinernem Lid.

Kommt, bohrt euren Stollen!

Es wird eine Wimper sein,
einwärts gekehrt im Gestein,
von Ungeweintem verstählt,
die feinste der Spindeln.

Vor euch tut sie das Werk,
als gäb es, weil Stein ist, noch Brüder.


Haverá mais um olho,
estranho, junto ao
nosso: mudo
sob a pálpebra de pedra.

Vinde, cavai as vossas galerias!

Haverá uma pestana,
virada para dentro, na rocha,
temperada com lágrimas não choradas,
o mais fino dos fusos.

À vossa frente faz ela o trabalho,
como se houvesse, porque há pedra, ainda irmãos.


Esperança
Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006.

12 agosto 2007

Ombro a ombro




















Lisboa 2005

Du darfst mich getrost
mit Schnee bewirten:
sooft ich Schulter an Schulter
mit dem Maulbeerbaum schritt durch den Sommer,
schrie sein jüngstes
Blatt.

Podes confiante
acolher-me com neve:
sempre que eu ombro a ombro
com a amoreira atravessava o verão,
gritava a sua mais jovem
folha.

Paul Celan, Setes Rosas Mais Tarde, trad. Yvette K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2006

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